Sobre edição de textos científicos
Dicas e discussões sobre a edição de textos da área científica

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Editores de “house organs” devem estar atentos à qualidade e precisão das informações que publicam, pois são elas que constroem os registros históricos que serão editados no futuro.

Ao longo dos últimos anos, temos editado vários relatórios de gestão e de sistematização de projetos sociais, para diferentes instituições, contando histórias do que foi feito, como, quando. Esses textos são produzidos com base em dados coletados de várias fontes: entrevistas com os gestores dos projetos, comunicações internas (como cartas e memorandos), relatórios estatísticos e, em grande parte, material publicado na imprensa, principalmente os “house organs”, ou seja, os jornais da casa. O jornal da fundação, a revista da associação, a newsletter da sociedade médica. E aí surgem dificuldades.

Como os jornalistas que estão produzindo esses materiais estão mais preocupados com o momento presente, imaginam que não têm um papel na construção da história daquela organização. Então, contando com o “awareness” (ou consciência) que as pessoas têm naquele momento a respeito do que está sendo feito, deixam de incluir dados nos textos que são importantes mesmo para quem, dali cinco a dez anos, pode não estar imerso na situação para entender a sua repercussão. Por exemplo: um assunto que receba hoje enorme atenção da mídia, principalmente a mídia digital e a TV, pode cair no esquecimento logo mais, a menos que isso esteja registrado historicamente.

A nossa experiência permite fazer algumas sugestões muito básicas aos nossos colegas jornalistas que se envolveram com o trabalho de assessoria de imprensa e edição de material corporativo:

1) Data da publicação — em publicações impressas, como jornais, revistas e newsletters, um pequeno detalhe pode fazer toda a diferença: colocar a data de publicação num cabeçalho ou rodapé em todas as páginas. Isso facilita o trabalho do historiador e evita a perda do dado quando há desarticulação da encadernação e soltura de páginas ou da capa. A data não ocupa tanto espaço e nem atrapalha visualmente, podendo ser impressa em tom de cor rebaixado ou até como marca d’água;

2) Data do evento — em todas as matérias, em publicações impressas ou eletrônicas (como newsletters, posts em blogs e mídias sociais), a data dos acontecimentos (e não da publicação) é muito importante. Aquele que toma contato com o texto anos depois não tem como descobrir quando algo aconteceu (seja uma reunião, um acidente, uma assinatura de contrato, um evento público) só com base na data de publicação da matéria;

3) Nome completo e correto — o nome completo das pessoas, e grafado da forma correta, é essencial. “O deputado Mandettta”, por exemplo, não é o nome completo da pessoa, e isso é especialmente perigoso no caso de sobrenomes mais comuns. No início do texto, e pelo menos uma vez, deve aparecer o nome completo de cada pessoa citada (exceto para celebridades conhecidas somente pela alcunha, como “Madonna”, “Tiririca” ou “Pelé”);

4) Siglas explicitadas — o uso de siglas é sempre uma armadilha quando o redator não cuida de explicar primeiro o que cada uma significa. Muitas siglas podem ter significados diferentes dependendo do contexto e o leitor não tem obrigação de entender a “sopa de letrinhas” criada pela preguiça de digitar os termos completos;

5) Todos os dados no texto — informações que são colocadas nos títulos das matérias também precisam ser inseridas no corpo do texto principal. Quando um título diz que 150 pessoas participaram de um evento, por exemplo, a informação precisa estar presente no texto, porque a matéria poderá, no futuro, ser lida ou compilada sem o seu título. O leitor poderá procurar o dado no texto, para obter mais informações sobre ele, e não encontrar, o que reduz a sua credibilidade.

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Nossos clientes continuam sendo procurados, com frequência, com convites que receberam de revistas para a publicação de artigos. Uma rápida olhada no website dessas revistas mostra que elas não têm indexação (portanto o artigo publicado nela não é rastreável) nem boa visibilidade (justamente por isso), suas publicações são irregulares e escassas e elas estão apenas tentando ganhar dinheiro em cima dos autores cobrando taxas de publicação (de mais de 2 mil dólares por artigo). As revistas que fazem esses convites, na maioria, são justamente as de menor qualidade. E publicar nelas pode ser uma decisão equivocada.

As (boas) revistas open access nasceram de um princípio muito interessante: o direito de se ter acesso, gratuitamente, aos resultados da pesquisa publicada no mundo todo. E realmente muitas boas, importantes e qualificadas revistas open access foram criadas nesse contexto, como a PLOS, por exemplo, considerada uma das melhores do mundo. Existem milhares de bons exemplos de revistas open access, que são de qualidade e têm boa reputação. Estas boas revistas têm sistemas de avaliação por pares bem definidos e organizados e não publicam qualquer coisa. Por isso, seus artigos são bem citados e elas conseguem bons fatores de impacto. Boa parte delas está listada no Diretório de Revistas Open Access https://doaj.org/.

No entanto, como essa modalidade de publicação é financiada pelo autor do artigo, o “open access” transformou-se num filão comercial altamente lucrativo. E começaram a surgir revistas publicadas por instituições que não são exatamente comprometidas com a ética e com a qualidade na publicação científica. Essas editoras não têm pudor algum em publicar artigos que passaram (se é que passaram) por processos de revisão por pares de qualidade muito duvidosa e com falta de padronização e transparência. Elas ganham no volume e enganam muitos pesquisadores, tanto os jovens como os mais experientes, prometendo publicação rápida. Quando publicam. São as chamadas revistas open access predatórias, por realizarem uma “concorrência desleal” com as revistas sérias e de qualidade.

Ao publicar seu artigo numa revista predatória, o autor pode desperdiçar um bom trabalho numa revista que não dá a menor garantia de que vai continuar no ar daqui a alguns meses. As revistas open access chamadas de predatórias têm meia-vida curta, enquanto as de qualidade permanecem, e têm muitos volumes publicados. É recomendado verificar o website de uma revista open access antes de pensar em enviar um artigo para publicação: seu profissionalismo e sistema de revisão por pares ficam transparentes na página oficial. O nome e o currículo do editor-chefe denuncia se a revista tem condições de sustentabilidade. E o endereço oficial deve ser claro e transparente — e não uma cabana no meio da floresta.

Estas são nossas recomendações para evitar jogar um bom artigo científico numa revista predatória:

1) Não aceite convites: se recebeu um convite por e-mail, desconfie. Muito raramente um editor de uma revista internacional de qualidade precisa enviar convites para receber artigos, porque as revistas de qualidade já estão abarrotadas de submissões e conseguem publicar somente uma pequena parte do que recebem. Convites, quando acontecem, são pessoais, e não chegam por meio de mensagens de e-mail coletivas (e sim do editor diretamente ao autor). Se recebeu um convite com apenas parte de seu nome, desconfie, pois você pode ter sido “pescado” por um robô enviando milhares de mensagens iguais, e não por um ser humano. Nunca aceite convites sem examinar a revista primeiro.

2) Indexação: verifique, em primeiro lugar, se a revista está indexada (em bases como o PubMed, Embase, LILACS, ISI). Não desperdice esforços publicando em revistas não indexadas. Se necessário, peça ajuda a um bibliotecário, numa biblioteca pública. Não custa nada.

3) Coleção da revista: verifique quantos volumes e fascículos a revista já publicou, e se publicou um número considerável de artigos em cada um. Revistas novas não são indexadas, porque é necessário atingir um certo número de publicações, com regularidade e adequado processo de revisão por pares para se conseguir uma boa indexação. Uma revista com três ou quatro artigos publicados em toda a sua história não atingiu, certamente, um nível de qualidade mínimo e nem regularidade na publicação. Provavelmente não é indexada e não vai conseguir indexação no futuro.

4) Editores: quem são o editor-chefe e os membros do Conselho Editorial? São autoridades na área? Têm eles boas publicações? A reputação da revista está em grande parte baseada no trabalho dos editores. Cuidado também com revistas que usam nomes “parecidos” com os de grandes editoras, como “Spring” (parecida com a editora Springer).

5) Apoio: a revista tem respaldo ou apoio de uma sociedade científica reconhecida? A falta de apoio pode revelar, por um lado, independência, mas por outro pode denunciar falta de reputação. O apoio de uma sociedade ou associação é um ponto positivo.

6) Qualidade do website: páginas com “ar caseiro”, simples, mal organizadas ou com jeito de que foram produzidas sem apoio profissional denunciam revistas que não têm infraestrutura suficiente para serem sustentáveis.

7) DOAJ, o Diretório de Revistas Open Access: consulte! Esse diretório traz uma “lista branca” de boas revistas open access: https://doaj.org/. A presença na lista produzida pela DOAJ, uma organização social sem fins lucrativos, é um bom sinal de qualidade da publicação. O DOAJ, quando suspeita de falhas de conduta das revistas, teoricamente remove essas publicações de sua lista.

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O EQUATOR Network, rede que produz diretrizes para publicação de artigos científicos, acaba de receber o Prêmio do Conselho de Editores Científicos 2017. O prêmio é concedido a pessoas ou instituições que se dediquem à melhora da comunicação em ciência por meio da busca de altos padrões de atividades ligadas à edição. O prêmio foi concedido para “honrar as contribuições e esforços do EQUATOR Network em promover a conduta ética, a redação e a publicação de trabalhos científicos”. A diretora do EQUATOR, Iveta Simera, recebeu o prêmio e avaliou: “este prêmio é um reconhecimento fantástico, não somente para toda a equipe do EQUATOR mas também para todos os que apoiam nossos esforços”.

A Palavra Impressa procura adotar as diretrizes do EQUATOR na edição dos artigos científicos na área de saúde, e procura apoiar os esforços para sua divulgação.

Mais informações em: https://www.ndorms.ox.ac.uk/news/equator-network-honoured-by-the-council-of-science-editors

 

 

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Estávamos numa sala de aula cheia de pesquisadores, discutindo quatro títulos de seus trabalhos, editando na hora, inserindo em tela as sugestões de todos. Esse tipo de experiência de trazer a prática para a didática permite que coisas interessantes aconteçam — tanto para professor quanto para o aluno.

A proposta era que cada pesquisador trouxesse o seu projeto de pesquisa com um título provisório, que digitamos num slide projetado. Depois de explicar alguns princípios básicos sobre as exigências das revistas científicas quanto aos títulos (teoria: menos de cinco minutos), passamos a aprimorar o que estava ali digitado, usando as diretrizes que foram discutidas antes e também as sugestões e críticas dos demais.

Na plateia, doutores, mestres, bacharéis e alguns alunos de graduação fazendo trabalhos de iniciação científica. Desconstruímos alguns preconceitos e vícios dos mais experientes, aprendemos alguns termos novos das áreas de estudo, e resolvemos alguns desafios sobre como falar mais em menos palavras.

Até que… deparamos com um problema difícil de resolver. Ninguém na sala sabia como expressar a existência de três grupos de estudo num dos títulos, sem alongá-lo demais. Propusemos então algo que, vez por outra, se mostra útil na edição de textos — embora muitos clientes se mostrem céticos: a espera com distanciamento.

Ficar longe de um texto (ou de um título) por algum tempo cria um distanciamento que nos permite ser críticos. Possibilita, também, maior contato com outros textos, outras inspirações, que despertam naturalmente novas soluções para um problema que parecia insolúvel. Falaremos sobre isto em outro post.

Propusemos, naquela aula, cuidar de outros aspectos daquele título por alguns momentos — o desenho do estudo, o nome da técnica utilizada, outros detalhes — e fomos resolvendo essas coisas, lapidando o texto por alguns minutos, quando, do fundo da sala, veio a solução: bastava simplesmente substituir uma palavra “e” por “ou”, sugeriu um colega. A mágica veio de um aluno de iniciação científica, talvez o menos experiente do grupo — e com certeza o que estava mais distanciado do problema!

Assim finalizamos a dinâmica do dia: alguns satisfeitos porque conseguiram editar, eles mesmos, os títulos de seus trabalhos de pesquisa; a direção porque sentiu que a equipe saiu um pouco mais habilitada a escrever bem, mesmo os que estavam trabalhando com títulos dos trabalhos dos outros; nós porque sempre podemos orientar melhor e prestar melhores serviços de edição quando entendemos bem as dificuldades dos clientes.

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Ao preparar a tradução de um regulamento para submissão de resumos para um congresso brasileiro, deparamos com o desafio de traduzir a expressão “tema livre”. O médico brasileiro entende bem quando se diz “apresentou o trabalho como um tema livre no congresso”… Mas se fizermos uma tradução literal para “free themes“, qualquer pesquisador falante da língua inglesa do resto do mundo provavelmente não vai entender. Então preferimos usar a expressão “abstract“. Porque, na realidade, o participante submete para o comitê de avaliação do congresso um resumo de seu trabalho e diz se pretende apresentá-lo na forma oral (geralmente terá em torno de cinco minutos para fazer isso) ou na forma de um painel (pôster) impresso ou eletrônico.

Mas de onde veio essa expressão “tema livre”, tão arraigada entre nós, brasileiros? Provavelmente encontraremos resposta na história do desenvolvimento de congressos médicos por aqui (história, aliás, que já editamos e publicamos aqui na Palavra Impressa).

Essa tradição brasileira de chamar a apresentação de “tema livre” vem desde o tempo em que as sociedades médicas tinham meia dúzia de associados, especialistas que se reuniam em algum lugar em “algo” que chamavam de congresso (e que tinha menos de 100 participantes). As sociedades ou associações davam aos “luminares” da especialidade um espaço para falar e eles faziam apresentações demoradas sobre o tema que quisessem — porque eram autoridades máximas na área, então todos queriam ouvir. Traziam relatos de caso, de experiências próprias, falavam por horas. Eram, realmente, temas livres.

Hoje, num congresso reunindo 5 mil pessoas (como por exemplo, o Congresso Brasileiro de Ortopedia e Traumatologia), não se pode mais dar esse mesmo tempo, e nem abrir muito os temas. Os temas, na realidade, não são mais “livres” coisa nenhuma…. São rigorosamente selecionados por um comitê de avaliação que passa semanas revisando todos os resumos submetidos. Então, embora não sejam mais “livres”, os médicos ainda chamam os “resumos” (abstracts) de temas livres aqui nas nossas terras tupiniquins.

Clique aqui: 40 Congressos Brasileiros de Ortopedia e Traumatologia

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Na semana passada, várias pessoas nos enviaram os parabéns pelos 21 anos da Palavra Impressa. (Dicas do LinkedIn!…). Pensamos: “ora, por que é que ano passado não falaram nada?” Claro, 20 anos não significam nada, mas o 21º aniversário parece que celebra uma certa “adultez”.

Isso fez pensar no que é que caracteriza este projeto — a esta altura, uma realização. E talvez uma pequena descrição de um dia na Palavra Impressa, ou de uma semana, ou de algumas horas, possa mostrar o que podemos fazer por você.

Ontem, fizemos uma visita a um hospital, onde discutimos com um cirurgião de joelho, linha por linha, um artigo científico que ele havia escrito — e onde seu mais importante achado ainda estava escondido. Antes disso, já havíamos despachado para impressão quatro artigos de uma das revistas de medicina que editamos, e que careciam de solução para pequenos detalhes. No caminho para o hospital, contatamos o nosso estatístico para dar a ele orientações sobre um gráfico que precisava ser adicionado a uma prova de outro artigo de cliente nosso, já no prelo. 

Na volta do hospital, conversamos pelo telefone com um fisioterapeuta que precisava de ajuda para formatar sua aula de mestrado. Ao chegarmos, editamos a imagem do gráfico do outro cliente, juntamos com uma carta ao editor e a prova corrigida e enviamos para a revista usando sistemas eletrônicos. Depois, finalizamos a revisão da tese de uma psicóloga, adicionando uns dados que a autora acabara de enviar em separado, e saímos novamente, agora para outro hospital. 

O primeiro hospital, que visitamos pela manhã, era bem diferente: filantrópico, de serviço público, cheio de desafios de infra-estrutura e de pacientes em macas nos corredores. O segundo está cotado como um dos melhores e mais luxuosos do Brasil. O cliente ali tinha um projeto de pesquisa para agência de fomento… que não iria conseguir convencer o agente avaliador a lhe dar financiamento. Editamos juntos o texto para que ficasse mais claro, conciso e consistente, além de convincente. A reunião aconteceu no departamento de pesquisa clínica da instituição, onde a convivência com outros pesquisadores e gestores de pesquisa é sempre enriquecedora. De volta ao escritório, terminamos a tradução de um artigo que já estava quase pronto, e enviamos para publicação numa revista britânica.

Um dia tão mergulhado em estudos da área de saúde pode fazer pensar que só trabalhamos com isso. Mas os diários aqui na Palavra Impressa podem ser variados — e apetitosos por isso. Nós também ajudamos advogados, contadores, engenheiros, administradores de empresas e de pessoas, designers e jornalistas com seus estudos (projetos, dissertações, teses, trabalhos de conclusão de curso, relatórios de pesquisa). Manuscritos acadêmicos de várias áreas — porque nós adoramos aprender.
Fora da academia, também temos ajudado as pessoas e organizações com seus textos. Formatamos e ajudamos nossos clientes a apresentarem suas aulas. Escrevemos currículos e cartas de apresentação para velhos clientes que estão tentando novos projetos de vida mundo afora. Fazemos reportagens. Participamos da edição de livros sobre vários temas, incluindo vários registros históricos e de projetos sociais desenvolvidos por fundações respeitadas no Brasil e no mundo (sim, já trabalhamos para a Organização Mundial de Saúde). Temos colaboração voluntária com a Cochrane, realizando a revisão de textos que são traduzidos por outros voluntários no Brasil todo. E essas histórias nós contamos não só em forma de artigos científicos, mas também de exposições que montamos em eventos, participações em congressos internacionais, entrevistas, textos para sites visitados por leigos, incluindo revisão e edição de entradas da Wikipedia.

Para leigos? Sim, claro. Todos têm direito à informação. Nós, da Palavra Impressa trabalhamos todos os dias para que os especialistas possam levar a público o resultado de seus trabalhos: sobre saúde, sobre cidadania, sobre direitos. Só assim o avanço das ciências vai poder beneficiar o maior número de pessoas.

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Acabamos de retornar da Coreia, onde participamos do Colóquio da Cochrane, uma instituição devotada à produção evidências de qualidade para a tomada de decisões em saúde. A Cochrane produz revisões sistemáticas da literatura médica, e alerta: mais de 40% dos dados produzidos por pesquisas no mundo todo na área de saúde simplesmente não são publicados.

Essa enorme quantidade de dados fica engavetada por vários motivos: dificuldade dos autores de escrever e publicar os artigos, barreiras de língua, falta de exigência ou de monitoramento por parte dos organismos que financiam a pesquisa, falta de apoio para a publicação… para desespero dos autores de revisões sistemáticas, que ficam sem matéria-prima para trabalhar. Os artigos não publicados são um grande ponto de interrogação para os autores das revisões. A Cochrane tem discutido em profundidade esses temas.

As revisões sistemáticas e as metanálises produzem sínteses que ajudam as pessoas, seus médicos e os gestores em saúde a tomar decisões sobre procedimentos como novos métodos de tratamento, prevenção ou diagnósticos. O que é que realmente funciona? Só que, se os dados não são publicados em artigos, como revisá-los? Talvez a tendência de realizar metanálises de dados de participantes individualmente (IPD) seja uma luz no fim do túnel.

Os dados individuais só podem ser revisados e incluídos nas metanálises se forem publicados em bases de dados públicas. Isso significa que, cada vez mais, as revistas e as instituições de fomento de pesquisas em saúde vão passar a exigir (e algumas já estão exigindo, como por exemplo a revista PLOs) que os autores publiquem os dados individuais de seus pacientes (claro que com identificações ocultas) em bases de dados públicas. Assim, outros pesquisadores, no mundo, podem acessar essas informações para realizar análises adicionais, mesmo antes da publicação dos artigos em forma de texto.

Os autores precisam estar atentos a essa tendência: manter bancos de dados (planilhas) formatados adequadamente e publicar esses dados em bases eletrônicas, que já estão disponíveis, é uma forma de demonstrar transparência e postura colaborativa. Quando e se a revista exigir, os dados já estão lá, prontos para qualquer escrutínio.

Essa tendência se segue à exigência, também cada vez maior, de registros de estudos clínicos a serem iniciados ou em andamento em bases como clinicaltrials.gov ou o brasileiro ReBEC (Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos). Já não é mais possível publicar um artigo sobre um estudo clínico sem ter antes registrado o estudo. Após a publicação do artigo científico, o autor deve também registrar os resultados na mesma base onde registrou o protocolo do estudo.

Estamos atentos a isso e temos recomendado, a nossos clientes, que façam esses registros (de protocolos ensaios clínicos e de dados individuais dos pacientes). A cultura será difícil de mudar, e teremos de nos acostumar… Caso contrário, a dificuldade de publicar vai ser cada vez maior.

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As revistas científicas internacionais da área biomédica, principalmente as que aderem ao COPE (Committee on Publication Ethics), estão cada vez mais solicitando dos autores que obtenham de pacientes a autorização deles para publicação de seus relatos de caso. Ou seja, agora não basta mais “ter o caso”, “ter cuidado do paciente” para escrever e publicar o relato: é preciso que se peça ao paciente seu consentimento para a descrição de sua história clínica, mesmo que o artigo seja feito de forma que sua identidade seja oculta. Isso porque, mesmo quando o nome do paciente é escondido, detalhes de sua condição clínica podem fazer com que ele seja reconhecido publicamente. Esse é o entendimento do COPE.

O consentimento para publicação do relato de caso não é o mesmo que o consentimento que o paciente assina para se submeter a procedimentos médicos (uma cirurgia, por exemplo). São documentos diferentes, com teor diferente. O fato de o paciente ter consentido para a realização de um procedimento não significa que consinta para a publicação.

Em caso de pacientes falecidos, o nome do doente e do familiar que assina a declaração de consentimento para publicação do caso têm de estar claros no documento. O documento deve trazer também o nome do profissional que explicou ao paciente ou familiar sobre o relato de caso (geralmente é o responsável pelo relato de caso, mas nem sempre).

O documento deve declarar que o paciente ou familiar viu a versão do relato de caso a ser publicada e, mesmo assim, concordou com isso. O documento também deve deixar claro que a confidencialidade não pode ser inteiramente garantida, mesmo quando a identidade do paciente é mantida sob sigilo — assinar o documento não anula o direito à privacidade. O paciente tem direito a ser informado onde e sob que condições o relato será publicado (sob que tipo de licença), e de saber que nenhuma vantagem financeira será obtida com a publicação. Deve ficar claro que, após a publicação, o consentimento para publicação não poderá ser retirado ou cancelado.

O COPE faz essas e outras recomendações e ainda fornece os links de alguns formulários, utilizados por revistas de qualidade, que podem ser traduzidos e utilizados por autores de relatos de caso no Brasil.

Veja aqui a discussão sobre o assunto e os modelos.

 

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Nossos clientes têm nos procurado, com frequência cada vez maior, portando convites de revistas para publicação de artigos. Recebem e-mails com “convites para submeter um artigo para uma revista importante”… Ao relermos juntos essas mensagens, fica patente que se trata de uma prática predatória, na verdade quase um golpe. Geralmente, não são as “revistas importantes” que fazem esses convites, mas justamente as revistas de menor qualidade, que dependem de volume de publicações para sobreviver financeiramente. E publicar nelas pode ser uma decisão equivocada. E cara: com taxas de mais de 2 mil dólares por artigo.

O movimento “open access” nasceu de um princípio muito interessante: o direito de se ter acesso, gratuitamente, aos resultados da pesquisa publicada no mundo todo. O princípio por trás do movimento é bonito e realmente muitas boas, importantes e qualificadas revistas foram criadas nesse contexto, como a PLOS, por exemplo. Existem mais de 9 mil bons exemplos de revistas open access qualificadas listadas no Diretório de Revistas Open Access https://doaj.org/. Estas boas revistas têm sistemas de avaliação por pares bem definidos e organizados e não publicam qualquer coisa. Por isso, seus artigos são bem citados e elas conseguem bons fatores de impacto.

No entanto, como essa modalidade de publicação é financiada pelo autor do artigo, o “open access” transformou-se num filão comercial altamente lucrativo. E aí começaram a surgir revistas publicadas por instituições que não são exatamente “sem fins lucrativos” ou comprometidas com a ética e com a qualidade na publicação científica. Essas editoras têm finalidade lucrativa e não têm pudor algum em publicar artigos que passaram (se é que passaram) por processos de revisão por pares de qualidade muito duvidosa e com falta de padronização e transparência. Elas ganham no volume e enganam muitos pesquisadores, tanto os jovens como os mais experientes, prometendo publicação rápida. Quando publicam. São as chamadas revistas open access predatórias, por realizarem uma “concorrência desleal” com as revistas sérias e de qualidade.

Essas revistas, que já são chamadas de “open access predatórias” com muita frequência não têm nenhum tipo de indexação em bases de dados eletrônicas. Portanto, exceto se tiver acesso aos websites das próprias revistas, o leitor não consegue ter acesso aos textos ou mesmo saber que os artigos existem. Elas frequentemente não são rastreáveis. E não estão indexadas justamente porque as bases de dados indexadoras têm critérios mínimos de qualidade, uniformidade e constância de publicação para considerarem a inclusão de novos periódicos. Revistas que não são capazes de manter sua periodicidade nem têm transparência em seu sistema de revisão por pares não são indexadas, simplesmente.

Para quem tem carreira acadêmica e precisa provar um certo número de publicações em periódicos indexados todo ano, essas revistas open access predatórias são uma perda de tempo — ao contrário das revistas open access sérias e publicadas por boas editoras, que têm indexação e excelente visibilidade. Existem, inclusive, muitas denúncias de infrações éticas cometidas pelas revistas “predatórias”, desde publicações redundantes até plágios ou publicação de artigos falsos. Muitas não têm sequer endereço fixo ou editor responsável.
A lista negra das predatórias

Jeffrey Beall é um biblioteconomista da Universidade de Colorado (Denver, Estados Unidos), que pesquisa há vários anos nessa área. Sim, esta se tornou uma linha de pesquisa na biblioteconomia, assim como métricas, metadata e outras. Beall montou uma página na internet na qual lista centenas de revistas de várias áreas que foram consideradas como predatórias. Essas publicações foram classificadas como predatórias de acordo com uma lista de critérios que abrange desde a composição do corpo editorial e sua qualificação acadêmica até a transparência (falta de) no processo de avaliação por pares, o comprometimento (falta de) com a preservação digital dos documentos, envio de cobranças de taxas surpresa, republicação, por cópia, de artigos publicados em outras revistas (sim, plágio) e muitas outras pistas. A principal missão dessas revistas é ganhar dinheiro — e não contribuir com a ciência mundial.

A “lista negra” criada por Beall está publicada e constantemente atualizada em https://scholarlyoa.com/publishers/

Os critérios que ele utilizou para criar a lista estão em:
https://scholarlyoa.files.wordpress.com/2015/01/criteria-2015.pdf

Vale a pena também ler este artigo sobre critérios para considerar uma revista como predatória: http://www.la-press.com/2014-Hill-illegitimate-PRINT.pdf
A lista branca das boas open access

Uma lista de revistas open access sérias, de boa qualidade, uma “lista branca”, está disponível no Diretório de Revistas Open Access https://doaj.org/, que contém mais de 9 mil revistas de várias áreas. Estas são listadas de acordo com princípios de transparência e qualidade, que estão disponíveis no site para consulta. A presença na lista produzida pela DOAJ, uma organização social sem fins lucrativos, é um bom sinal de qualidade da publicação. O DOAJ, quando suspeita de falhas de conduta das revistas, remove essas publicações de sua lista. Portanto, ao buscar uma revista open access para publicar um artigo, o DOAJ deveria ser a primeira fonte.

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Os nomes das bases de dados onde se pode procurar artigos científicos na área de saúde frequentemente são siglas, redigidas em letras maiúsculas (“caixa alta”), mas nem sempre. Às vezes, são nomes derivados, que foram registrados com letras minúsculas, ou maiúsculas e minúsculas misturadas. É interessante respeitar a grafia oficial proposta pelas próprias bases de dados e referir-se a elas de forma correta e homogênea nos textos.

Abaixo seguem as principais bases de dados utilizadas em buscas na literatura em saúde (e também para produção de revisões sistemáticas) e a grafia correta de seus nomes conforme disposto em suas páginas oficiais. Os primeiros da lista são grafados totalmente em maisúculas (“caixa alta”), depois vêm os que são grafados em maiúsculas e minúsculas (“caixa alta e baixa”) e por fim, em minúsculas (“caixa baixa”), somente com a primeira letra em maiúsculas.

 

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