Sobre edição de textos científicos
Dicas e discussões sobre a edição de textos da área científica

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Muitas vezes quando sugerimos que sejam feitas certas modificações nos artigos científicos, para esclarecer, acrescentar detalhes ou simplesmente tornar a leitura mais fácil, ouvimos esta justificativa de nossos clientes: “Mas todo mundo publica assim”.

Muitos pesquisadores realmente publicam artigos incompletos, difíceis de compreender, cheios de jargão. Às vezes fazem isso para esconder escolhas metodológicas questionáveis, e outras vezes é somente para “seguir a moda”. Temos visto até mesmo orientadores de pós-graduação que sugerem que seus alunos usem linguagem rebuscada e difícil para soar “mais sério”.

Os melhores centros de pesquisa do mundo já acordaram para o fato de que precisam tornar a ciência mais aberta e acessível para todos. “Aberta” significa “aberta ao escrutínio”, transparente. “Acessível” significa, por um lado, escolher publicações que não cobram do leitor pela visualização (“open access”) e, também, em linguagem que não especialistas possam compreender. 

Abaixo estão algumas situações em que pequenas mudanças, fáceis de fazer, têm enorme efeito na visibilidade e consequentemente no uso das publicações em saúde. Temos reiterado essas noções junto a nossos clientes, mesmo enfrentando a velha desculpa do “mas todo mundo faz assim”. Na nossa visão, já passou da hora de iniciar mudanças e tornar o acesso à ciência mais democrático. 

Abreviações e siglas

Um ranço da época em que as publicações científicas eram impressas, e o espaço era milimetricamente limitado faz com que muita gente imagine que economizar algumas letras faz diferença. A realidade atual é que… não. A contagem de limitação de tamanho de texto em artigos e resumos hoje é feita em número de palavras, não de letras. Portanto, abreviar “eritropoietina” como “EP” é só uma maneira de tornar a leitura e a compreensão de um texto mais difícil… porque não ajuda a reduzir a contagem.

Com siglas pode ser um pouco diferente, já que elas de fato podem reduzir um pouquinho o número de palavras. Mas ainda assim, muita confusão pode ser criada por causa da “moda das siglas”. Embora haja alguns termos que são mais conhecidos como siglas (“DNA”) do que pelos nomes reais (ácido desoxiribonucleico), criar novas siglas pode gerar enorme confusão na vida de leitores comuns e autores de revisões sistemáticas. “EPO”, por exemplo, pode significar a substância “eritropoietina” citada acima mas também o gene que codifica a proteína. 

Portanto, recomendamos:

– não crie novas siglas;

– sempre que possível, prefira escrever os nomes por extenso nos textos, mesmo que cite a sigla uma vez para facilitar que os robôs identifiquem seu artigo nas buscas;

– se usar siglas, explicite o extenso pelo menos uma vez no texto ou, melhor ainda, em cada seção. Seu leitor não tem obrigação de saber nem de lembrar ou de interromper a leitura para consultar o significado;

– em resumos, usar a sigla pode “economizar” palavras: ainda assim, é essencial definir no primeiro uso.

Técnicas e métodos

“Não preciso explicar como se faz, esta é uma técnica consagrada”. Esta “desculpa” para não descrever detalhadamente técnicas de análise ou tratamento utilizadas nos artigos não é pertinente. Motivos:

– ainda que existam “técnicas consagradas”, muitas vezes os pesquisadores promovem pequenas mudanças ou melhorias em procedimentos que interferem nos resultados. Se foi utilizada a técnica exatamente como criada e publicada, a referência deve ser citada;

– não são somente especialistas experientes na técnica que vão ler o artigo científico: autores de revisões sistemáticas precisam ter certeza de que a técnica é comparável a de outros trabalhos; gestores também precisam tomar decisão com base nesses detalhes; alunos de graduação e pós-graduação não estão necessariamente habituados aos detalhes; e pacientes e leigos também têm direito à informação a respeito do que está sendo feito com sua saúde e o dinheiro de seus impostos. Convenci?

Como você tratou?

Assim como para técnicas de análise é importante fornecer detalhes, também é crucial descrever minuciosamente como um tratamento foi planejado e oferecido em estudos clínicos. E isto vale para intervenções em saúde de qualquer natureza: medicamentos ou conjunto deles, modificações de posologia ou dosagem, cirurgias, procedimentos fisioterápicos e psicológicos ou intervenções sociais. Em qualquer desses casos, deve-se pressupor que o leitor não tem a menor ideia de como reproduzir o tratamento, portanto precisa de detalhes sobre materiais empregados, clínicos ou outras pessoas envolvidas com a aplicação, e o treinamento que receberam, momentos de tratamento, cegamento do paciente e custo. E tudo isso vale também para os placebos utilizados, que devem ser descritos quanto ao seu formato, aspecto, gosto, cheiro, peso e toda e qualquer característica importante para diferenciá-lo do tratamento em estudo.

Quer saber mais? Veja este roteiro para redação de artigos científicos (“reporting guideline”) dedicado somente a intervenções e placebos, o TIDieR (website em inglês): http://www.tidierguide.org.

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Forneça informações precisas e atualizadas na introdução de seu artigo científico

A introdução de um artigo científico na área de saúde é o local onde se chama a atenção do leitor para o “tamanho do problema”, a sua importância. É comum que se inicie com um dado estatístico sobre a incidência da doença em questão no mundo: números impressionam. Mas é preciso ser cuidadoso com essa redação.

Na intenção de colocar cores mais fortes no problema, podemos, sem querer, fazer afirmações incorretas. Por exemplo: num artigo sobre câncer de pulmão outro dia encontramos uma frase assim: “em 2017, o câncer de pulmão é responsável pelo maior número de mortes no mundo”.

Impressionante, não é? 

Mas errado.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) informa, em 2020 — e os números não mudam há vários anos —, que as doenças cardiovasculares são as que mais matam no mundo: doenças isquémicas do coração, derrames. Em seguida vêm as doenças pulmonares, mas aqui temos em primeiro lugar a doença pulmonar obstrutiva crônica, que não é câncer. Se tomarmos as estatísticas de 2019, o câncer de pulmão, traqueia e brônquios aparece como sexta causa de morte no mundo. 

Ou seja, por mais que seja grave e prevalente, o câncer de pulmão não é responsável pelo maior número de mortes no mundo. O que o autor quis dizer, provavelmente, é que, “dentre os tipos de câncer, o de pulmão é o que tem maior mortalidade”. Esta sim pode ser uma afirmação verdadeira. Uma pequena edição no texto dessa primeira frase traria muito mais precisão à informação.

A introdução pode ser considerada, por muitos, a parte “menos importante” de um artigo e que merece menos dedicação. Não é: esta é a parte que convence o leitor a continuar lendo. E que chama a atenção de usuários nem sempre especializados: estudantes de graduação ou mesmo de ensino médio que podem estar fazendo uma pesquisa escolar… e reproduzindo informações incorretas. 

A introdução precisa ser precisa (com perdão da repetição!). E a citação de referências bibliográficas para apoiar as afirmações precisa ser correta e responsável — mas citação irresponsável é assunto para outro post, em breve!

https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/the-top-10-causes-of-death
https://www.who.int/data/gho/data/themes/mortality-and-global-health-estimates

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Esta pergunta “o que faz um medical writer” aparece geralmente depois desta outra: “qual é a sua profissão?” 

A área de atuação profissional como “medical writer” ainda é bem pouco conhecida no Brasil — tanto que nem uma tradução adequada apareceu até agora. Mas considerando que a publicação científica na área biomédica é feita na língua inglesa, principalmente, isso não surpreende e nem é urgente.

Para quem quer compreender melhor algumas das coisas que um medical writer pode fazer por um pesquisador, uma equipe de pesquisadores, uma instituição de pesquisa ou uma empresa, a primeira observação a fazer é: um medical writer não é um tradutor. O medical writer também faz traduções, mas esse não é o seu negócio principal, ou o principal serviço que pode prestar à comunidade científica. Um medical writer, como o próprio nome diz, é um escritor, um editor de textos, alguém especializado na área científica de saúde, e não somente um tradutor de textos já produzidos por outrem. (E é por isso que o medical writer não compete com o tradutor pelo mercado, nem por preço nem por competência: são áreas diferentes de atuação).

A profissão nasceu principalmente nos Estados Unidos e Europa para apoiar a indústria farmacêutica na redação de documentos regulatórios, ou seja, textos que essas empresas precisam submeter a agências que estabelecem as normas de segurança e aprovação de tecnologias em saúde. No Brasil, por exemplo, temos a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Ministério da Saúde, além do Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). O medical writer conhece todas as regras e meandros das normas e regulações para poder preencher formulários e escrever relatórios claros que resultem em aprovações de produtos. A realização de estudos clínicos pela indústria inicia com o registro dessas iniciativas em bases de dados especializadas, e o medical writer é contratado para auxiliar nesse processo. Sim, fazemos registro de clinical trials.

No entanto, ao longo dos anos, a atuação do medical writer se ampliou bastante. Hoje, esse profissional continua atuando na redação de projetos de estudo, protocolos metodológicos (para comitês de ética, agências de fomento e outras organizações), mas também tem grande participação na redação ou edição de artigos científicos. O medical writer pode trabalhar na redação desses manuscritos, que são submetidos para publicação em revistas científicas, cuidando do formato, clareza da exposição de ideias, qualidade do texto e atenção às normas de cada periódico. Pode, e deve, cuidar de adequar esses textos às melhores diretrizes da área, os roteiros para redação de artigos científicos. E deve ficar atento ao desenvolvimento de novas normas éticas na área de publicações científicas da área biomédica, para melhor orientar e atender seus clientes, impedindo-os de incorrer em alguma falha no atendimento de requisitos.

Além dos artigos científicos para publicação em periódicos, o medical writer também pode ajudar os pesquisadores a montar aulas (slides) mais claras, diretas e bem formatadas para seus alunos e colegas. O medical writer é um profissional de comunicação que vai adequar cada apresentação ao público a que ela se destina. Quando se trata de um congresso médico, por exemplo, o medical writer pode ajudar muito na redação e correção do resumo que é submetido para avaliação. E dentro da academia, também pode auxiliar na revisão de texto de teses e dissertações, sempre cuidando do limite ético de não interferir na criação da peça nestes casos, pois o aluno está sob avaliação.

As empresas e associações ou organizações não governamentais se beneficiam do serviço prestado pelo medical writer quando este profissional participa da concepção, redação e organização de websites, destinados a profissionais ou a pacientes. Uma possibilidade de atuação é a adequação para avaliação em organismos acreditadores como o HonCode ou simplesmente a realização de avaliações de qualidade, usando o DISCERN, por exemplo. Panfletos e outros materiais destinados a pacientes ou membros da comunidade (como cuidadores) e para a imprensa orientando sobre questões de saúde precisam ser claros e adequados ao nível educacional e alfabetismo em saúde da população. O medical writer deve usar de competências como comunicador em ciência para disseminar essas informações corretamente (o que envolve interpretar a ciência corretamente também).

A formação necessária para atuar nessa área envolve alguma atuação em pesquisa na área biomédica: mestrado ou doutorado. A experiência em pesquisa é imprescindível porque o medical writer precisa ser capaz de compreender o raciocínio clínico e o raciocínio científico: da anamnese e exame físico ao diagnóstico e tratamento, da questão em pesquisa à elaboração de hipóteses, metodologia e análise de resultados. Se o editor de texto não tem familiaridade com esses passos e a importância de cada um, não é capaz de identificar falhas, lacunas de informação e mesmo erros que podem impedir a publicação de uma pesquisa. Conhecimento de medicina baseada em evidências também é um diferencial.

O medical writer não é simplesmente um profissional de texto (um “corretor de português” ou “tradutor de inglês”): o texto (com suas regras gramaticais e ortográficas) é um de seus instrumentos de trabalho, apenas um. O medical writer trabalha na construção de textos e outros materiais que exponham de forma correta, clara e concisa o processo e o resultado de uma pesquisa biomédica. Nós da Palavra Impressa não atuamos somente como “tradutores” (e muitas vezes contratamos parceiros para fazer traduções) ou como “revisores de texto”: fazemos um pouquinho mais. 

Nós da Palavra Impressa (principalmente Patricia Logullo) atuamos na área de medical writing no Brasil há mais de 20 anos. Sempre nos preocupamos em nos atualizar e qualificar continuamente e hoje atuamos em Oxford com “meta-pesquisa” (ou pesquisa sobre a qualidade das publicações em saúde) e, a distância, com medical writing para a comunidade do Brasil. Somos membros da Oxford-Brazil EBM Alliance e da EMWA (European Medical Writers Association). Neste blog post anterior, falamos um pouco de um dia típico de trabalho, em que pudemos expor a variedade de coisas que podemos fazer para ajudar você a publicar.

Neste link se pode ler a posição conjunta das associações norte-americana (AMWA) e europeia (EMWA) de medical writers e da Sociedade Internacional de Profissionais em Publicações Médicas (ISMPP) sobre o papel dos medical writers, suas responsabilidades e as dos autores que os contratam.

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A decisão sobre a revista onde vamos publicar nosso estudo na área de saúde deve acontecer cedo no processo da pesquisa, e não quando tudo já estiver pronto e o artigo sendo escrito. Escolher a revista deve, inclusive, ser um processo guiado, entre outras coisas, pelas instruções para autores da revista escolhida. A escolha da revista deve ser feita de comum acordo com todos os co-autores, levando em consideração a visão de todos, numa discussão precoce e aberta. 

A nossa recomendação é de que esta ordem de prioridades pode ser considerada, não importando se é a primeira submissão ou a submissão após uma recusa:

1) Escopo: certifique-se de que o tema de seu trabalho está dentro do escopo da revista (verifique isso na página da revista na internet). É muito comum que os editores recusem o trabalho usando a justificativa de que ele “estava fora do escopo”, e é possível evitar isso tendo certeza a respeito do que a revista quer. Se necessário e caso não fique claro lendo o material publicado pela revista, é possível enviar uma mensagem para o editor ou para a secretaria editorial com o título e o resumo (ou uma breve descrição do trabalho), perguntando se o trabalho se encaixa no escopo. Isso pode ser feito como uma “presubmission inquiry”. A maioria das revistas vai responder.

2) Público: a sua comunidade, a revista que você e seus colegas mais leem, consultam, e onde mais encontram artigos úteis é, provavelmente, a mais adequada para a sua pesquisa. Qual é o público dessa revista? É preciso pensar em quem se quer atingir, em quem precisa ler os resultados do trabalho. Revistas mais especializadas tendem a ter uma audiência menor, mas mais interessada no tema; enquanto revistas mais generalistas têm público muito maior — mas não significa que a visibilidade do artigo específico será grande, se ele for de interesse de uma minoria.

3) Indexação e visibilidade: na área de saúde, é primordial que clínicos, gestores e pacientes tenham acesso ao artigo e aos resultados da pesquisa. E para que eles encontrem o artigo em buscas feitas nas bases de dados, é importante que a revista esteja indexada (em bases como MEDLINE, EMBASE e outras), e que não seja uma revista predatória (ajuda para reconhecer revistas predatórias no site https://thinkchecksubmit.org).

4) Formatação e “word count”: quanto mais rígida a revista em termos de formatação do artigo, mais trabalho isso vai gerar em caso de recusa, situação em que se vai precisar reformatar tudo para outra revista. O tempo disponível deve ser levado em consideração na hora de escolher a revista.

5) APC (article processing charges), ou taxa de open-access: este não deveria ser um critério de escolha de revista num mundo ideal, em que há financiamento para essas taxas. Mas no mundo real, em que muitos pesquisadores precisam pagar a taxa do próprio bolso (ainda que compartilhado por todos os co-autores), o valor da taxa é levado em consideração na hora de escolher a revista. Consultar esses valores antes de iniciar a submissão é uma precaução importante.

Observação: não foi incluído na lista o dito “Fator de Impacto” (FI), calculado pela Clarivate Analytics. O FI não é uma medida de qualidade (nem da revista, nem dos pesquisadores) e não deveria nortear a escolha das revistas onde se quer publicar artigos na área de saúde.

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A Palavra Impressa não é uma empresa de tradução. Se você tem um texto em português que precisa só de tradução (ou se você somente quer a tradução), há muitas empresas no mercado brasileiro competindo para prestar bons serviços a preços baixos. Nós não participamos desta competição. Nós fazemos outra coisa.

Nós somos uma consultoria que trabalha para aprimorar os textos para que eles possam ser melhor publicados, incluindo textos científicos da área de saúde e relatórios da área social. Isso quer dizer que, ao nos entregar o seu texto, ele será revisado, submetido a um olhar muito crítico, que procura identificar todas as oportunidades de melhoria. Isso é feito sob a perspectiva da integridade e das boas condutas em pesquisa, em jornalismo e em ética. 

Nós nos preocupamos em produzir relatórios e artigos que sejam transparentes, íntegros (completos) e éticos. Recebemos treinamento em revisões, pesquisa observacional e clínica, jornalismo investigativo e científico. Nossa experiência em pesquisa nos permite conhecer os desafios da conduta acadêmica e a forma como funciona o raciocínio clínico. Essa visão nos impede de simplesmente traduzir um texto quando ele está incompleto ou tem conclusões não respaldadas por seus métodos e resultados, por exemplo. É por isso que não oferecemos, simplesmente, serviços de tradução — embora possamos editar e até redigir o seu relatório diretamente na língua inglesa ou portuguesa.

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Cada vez mais, as revistas científicas solicitam aos autores que sugiram revisores (“referees”) para avaliarem seus artigos. No momento da submissão do artigo, o autor correspondente precisa indicar dois ou três revisores, suas instituições em contatos. Por que isso acontece? E como selecionar bons revisores?

As revistas científicas têm um número limitado de componentes em seu quadro editorial, e os revisores, na grande maioria dos casos, trabalham voluntariamente. Isso quer dizer que nem sempre as publicações podem contar com os melhores revisores: muitos não concordam em fazer o trabalho por falta de tempo, por exemplo, ou mesmo por falta de conhecimento no campo específico do artigo. Esse é o motivo pelo qual os editores pedem aos autores que indiquem mais revisores: assim, aumenta o leque de possibilidades de se conseguir uma revisão em menor prazo.

O fato de um autor correspondente recomendar dois ou três revisores não significa necessariamente que a revista usará esses nomes. A revista poderá ou não aceitar a sugestão, com base na disponibilidade de seus próprios revisores e no quanto os editores julgam essa recomendação apropriada. Porém, mesmo se a publicação não precisar dos nomes sugeridos pelos autores, será necessário sugerir durante a submissão do manuscrito. Por isso, os autores devem ter consigo uma lista de possíveis revisores para seu artigo antes mesmo de iniciar a submissão eletrônica nas revistas. 

Uma revisão por pares bem feita precisa ser independente, conduzida por alguém não envolvida com o trabalho que está sendo avaliado. Para garantir essa independência e a qualidade da revisão, existem recomendações para a escolha dos revisores (baseadas em diretrizes do COPE, ICMJE, EQUATOR Network e F1000), que podem e devem ser seguidas:

– escolha revisores de instituições diferentes da sua. Assim, diminui a possibilidade de estarem envolvidos de alguma maneira com a pesquisa ou pessoalmente com os autores;

– escolha revisores que tenham conhecimento na área específica da pesquisa: não somente isto provê uma revisão de mais qualidade, mais aprofundada, mas evita que os revisores recusem fazer a revisão por falta de especialização na área, atrasando o processo de revisão e aprovação do seu artigo;

– escolha revisores que não tenham conflitos de interesse com a pesquisa. Por exemplo, envolvidos com a empresa que fabrica um produto que está sendo avaliado;

– escolha revisores de outros países: a visão global, de pontos de vista diferentes, é positiva e enriquecedora para o manuscrito;

discuta com seus co-autores a escolha dos revisores: eles podem ter conhecimento de outros nomes ou de conflitos de interesse sobre os revisores que você pensa em sugerir;

não sugira revisores que tenham sido seus co-autores recentemente. Isso pode indicar um conflito de interesse, e o revisor deve recusar-se a revisar um artigo proveniente de uma pesquisa de que tenha participado ainda que indiretamente.

E, após a submissão do seu artigo, não entre em contato com as pessoas que sugeriu como revisores. Esse comportamento pode ser considerado anti-ético (uma tentativa de intimidar ou pressionar o revisor).

 

 

 

 

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Na área biomédica, existem critérios bem definidos — embora nem sempre seguidos — para determinar quem pode e quem não pode ser autor de um artigo científico. Esses critérios foram estudados por duas instituições importantes na área:

ICMJE (International Committee of Medical Journal Editors – www.icmje.org)
COPE (Committee on Publication Ethics – https://publicationethics.org).
Com base nessas diretrizes, elaboramos o guia abaixo, fácil de seguir e que está em português. Quando estiver na dúvida sobre se alguém colaborou o suficiente em sua pesquisa para ser considerado um autor, faça esta reflexão. E se descobrir que alguém não deveria ser autor do seu trabalho, elabore um agradecimento especial para publicar no artigo.
fluxograma autoria

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Consultores que trabalham com cobrança por honorário (hora trabalhada) muitas vezes sentem dificuldade de cobrar por serviços realizados rapidamente. Quando algo é resolvido em cinco minutos ou menos, pode parecer que “não deu trabalho”, e por isso não deveria ser cobrado. De fato, muitos clientes demandam a solução gratuita de problemas: é “rapidinho”, dizem, “você resolve num piscar de olhos”.

O que fica difícil de compreender — e faz com que a cobrança por serviços “rápidos” pareça uma exploração mercenária para alguns — é que, se conseguimos resolver alguns problemas rapidamente é porque estudamos, treinamos e nos aprimoramos durante décadas para adquirir a competência necessária para resolver aquilo em cinco minutos (e não em cinco horas). O profissional experiente e bem formado diagnostica o problema num piscar de olhos e aplica a solução de forma mais ágil. Ironicamente, ao fazer isso, o cliente interpreta o ato como “fácil” — só porque foi rápido.

Isso vale para qualquer área: para um médico, para um engenheiro, para um mecânico de oficina, um editor de textos ou para um profissional executando trabalhos domésticos. Da mesma forma que um editor consegue uma solução para um título ou para uma frase que até parece “mágica” para cliente, o cozinheiro resolve rapidamente um problema ajustando uma temperatura, e um médico diagnostica uma anemia só “de bater o olho”. Tudo isso é possível, mas requer experiência. Enquanto alguns serviços simplesmente não podem ser realizados em pouco tempo — edição de grandes volumes de texto, por exemplo —, outras soluções podem, sim, ser rápidas. Mas somente um profissional experiente é capaz de fazer rapidamente o que outro, por falta de prática, conhecimento ou jornadas de atendimento, faz com a mesma qualidade, porém mais devagar.

O serviço precisa ser remunerado pela competência do executor, não pela média de mercado (que inclui os mais e os menos experientes e competentes). Serviço não é geladeira: licitação e tomada de preços nem sempre são a melhor estratégia para contratação, porque o profissional que oferece o menor preço ou o menor prazo pode não ser realmente capaz de entregar o melhor serviço ou de cumprir o prazo prometido. Por outro lado, quando compreende que, desse prestador de serviço, vêm soluções rápidas, que resolvem seu problema rapidamente e bem, o cliente estabelece uma relação duradoura e de confiança com o profissional, valorizando dessa forma o trabalho. A escolha vem da competência, não do preço.

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Em duas décadas ajudando pesquisadores a publicar seus estudos científicos, percebemos um fenômeno psicológico curioso: a evolução da paranoia pré-tese para a ressaca pós-tese. Funciona mais ou menos como as fases do luto já identificadas pelos psicólogos.

 

Fase de estudo: o pós-graduando passa dois a quatro anos estudando exaustivamente o assunto. Procura e examina a literatura, discute com o orientador, com especialistas, encontra obstáculos teóricos e práticos (choque?). Enfrenta-os e encontra outros. Contorna-os, ignora-os (negação?), encara-os (raiva?), mas segue adiante. Geralmente, deixa para a última hora (negociação?) o principal: escrever a tese.

 

Fase da paranoia pré-tese: como deixou a redação para a última hora, o pós-graduando descobre que tem uma avassaladora quantidade de conhecimento armazenada… no cérebro. Proveniente de dados distribuídos em alguns hard drives, muitos pen drives, blocos de notas, papéis presos a pranchetas… Mesmo apertado pelo prazo, começa a escrever em ritmo moroso. (Depressão?) E fica, naturalmente, paranoico sobre se está esquecendo de alguma coisa. Isso geralmente se deve ao fato de não ter planejado antes os capítulos e subcapítulos da tese. O pós-graduando, na maioria das vezes, acha que um lampejo de inspiração irá salvá-lo, e as ideias passarão para o papel como um processo de “download”, automático. Baixou tudo?

 

Fase da ressaca pós-tese: salvo por um bom orientador, colega ou revisor, que conseguiu colocar ordem na sua bagunça mental, o pós-graduando escreveu (aceitação?), imprimiu, encadernou e entregou a tese. No dia marcado, enfrentou a banca e provou que sabe, sim, sobre o assunto. Mas agora, que o trabalho foi corrigido e aprovado, precisa ganhar o mundo, ser publicado. E é justamente a hora em que surge a ressaca pós-tese. Como no dia após a noite de bebedeira, o pós-graduando está cansado. Com a vista turva. Intolerante. Não pode mais ouvir sobre o assunto do estudo, que dirá falar ou escrever sobre ele.

O pós-graduando então enfrenta um novo ciclo psicológico: de choque (sim, tem que publicar para conseguir o diploma), negação (pensa na possibilidade de não publicar), raiva (tem que publicar em inglês, sim!), negociação (tem que publicar na revista escolhida pelo orientador ou em qualquer uma?), depressão (após a segunda ou terceira recusa do trabalho)… e finalmente aceitação (de que o trabalho precisa ser publicado, com qualidade, numa boa revista, portanto precisa ser produzido o quanto antes). Haja café!

 

A melhor maneira de evitar a ressaca da bebedeira é tomar muita água, comer antes de beber e… ser prudente, não exagerar no álcool, claro.

Receita da Palavra Impressa para evitar a ressaca pós-tese:

 

1) planejar a redação da publicação exigida pela universidade ao mesmo tempo em que planeja a redação da tese, com previsão de todos os seus subcapítulos, na ordem correta, e escrever esse planejamento;

2) redigir a publicação antes da defesa da tese; e

3) solicitar a revisão da tese e da publicação antes da defesa. Isso faz com que a sensação de paranoia, de insegurança antes da defesa diminua, assim como a ressaca depois da defesa.

 

Uma publicação nunca está pronta: sempre achamos que podemos melhorar alguma coisa. Mas, pelo menos, tomados esses cuidados, a paranoia vai ser bem menor.

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Editores de “house organs” devem estar atentos à qualidade e precisão das informações que publicam, pois são elas que constroem os registros históricos que serão editados no futuro.

Ao longo dos últimos anos, temos editado vários relatórios de gestão e de sistematização de projetos sociais, para diferentes instituições, contando histórias do que foi feito, como, quando. Esses textos são produzidos com base em dados coletados de várias fontes: entrevistas com os gestores dos projetos, comunicações internas (como cartas e memorandos), relatórios estatísticos e, em grande parte, material publicado na imprensa, principalmente os “house organs”, ou seja, os jornais da casa. O jornal da fundação, a revista da associação, a newsletter da sociedade médica. E aí surgem dificuldades.

Como os jornalistas que estão produzindo esses materiais estão mais preocupados com o momento presente, imaginam que não têm um papel na construção da história daquela organização. Então, contando com o “awareness” (ou consciência) que as pessoas têm naquele momento a respeito do que está sendo feito, deixam de incluir dados nos textos que são importantes mesmo para quem, dali cinco a dez anos, pode não estar imerso na situação para entender a sua repercussão. Por exemplo: um assunto que receba hoje enorme atenção da mídia, principalmente a mídia digital e a TV, pode cair no esquecimento logo mais, a menos que isso esteja registrado historicamente.

A nossa experiência permite fazer algumas sugestões muito básicas aos nossos colegas jornalistas que se envolveram com o trabalho de assessoria de imprensa e edição de material corporativo:

1) Data da publicação — em publicações impressas, como jornais, revistas e newsletters, um pequeno detalhe pode fazer toda a diferença: colocar a data de publicação num cabeçalho ou rodapé em todas as páginas. Isso facilita o trabalho do historiador e evita a perda do dado quando há desarticulação da encadernação e soltura de páginas ou da capa. A data não ocupa tanto espaço e nem atrapalha visualmente, podendo ser impressa em tom de cor rebaixado ou até como marca d’água;

2) Data do evento — em todas as matérias, em publicações impressas ou eletrônicas (como newsletters, posts em blogs e mídias sociais), a data dos acontecimentos (e não da publicação) é muito importante. Aquele que toma contato com o texto anos depois não tem como descobrir quando algo aconteceu (seja uma reunião, um acidente, uma assinatura de contrato, um evento público) só com base na data de publicação da matéria;

3) Nome completo e correto — o nome completo das pessoas, e grafado da forma correta, é essencial. “O deputado Mandettta”, por exemplo, não é o nome completo da pessoa, e isso é especialmente perigoso no caso de sobrenomes mais comuns. No início do texto, e pelo menos uma vez, deve aparecer o nome completo de cada pessoa citada (exceto para celebridades conhecidas somente pela alcunha, como “Madonna”, “Tiririca” ou “Pelé”);

4) Siglas explicitadas — o uso de siglas é sempre uma armadilha quando o redator não cuida de explicar primeiro o que cada uma significa. Muitas siglas podem ter significados diferentes dependendo do contexto e o leitor não tem obrigação de entender a “sopa de letrinhas” criada pela preguiça de digitar os termos completos;

5) Todos os dados no texto — informações que são colocadas nos títulos das matérias também precisam ser inseridas no corpo do texto principal. Quando um título diz que 150 pessoas participaram de um evento, por exemplo, a informação precisa estar presente no texto, porque a matéria poderá, no futuro, ser lida ou compilada sem o seu título. O leitor poderá procurar o dado no texto, para obter mais informações sobre ele, e não encontrar, o que reduz a sua credibilidade.

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