Sobre edição de textos científicos
Dicas e discussões sobre a edição de textos da área científica

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Na área biomédica, existem critérios bem definidos — embora nem sempre seguidos — para determinar quem pode e quem não pode ser autor de um artigo científico. Esses critérios foram estudados por duas instituições importantes na área:

ICMJE (International Committee of Medical Journal Editors – www.icmje.org)
COPE (Committee on Publication Ethics – https://publicationethics.org).
Com base nessas diretrizes, elaboramos o guia abaixo, fácil de seguir e que está em português. Quando estiver na dúvida sobre se alguém colaborou o suficiente em sua pesquisa para ser considerado um autor, faça esta reflexão. E se descobrir que alguém não deveria ser autor do seu trabalho, elabore um agradecimento especial para publicar no artigo.
fluxograma autoria

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Consultores que trabalham com cobrança por honorário (hora trabalhada) muitas vezes sentem dificuldade de cobrar por serviços realizados rapidamente. Quando algo é resolvido em cinco minutos ou menos, pode parecer que “não deu trabalho”, e por isso não deveria ser cobrado. De fato, muitos clientes demandam a solução gratuita de problemas: é “rapidinho”, dizem, “você resolve num piscar de olhos”.

O que fica difícil de compreender — e faz com que a cobrança por serviços “rápidos” pareça uma exploração mercenária para alguns — é que, se conseguimos resolver alguns problemas rapidamente é porque estudamos, treinamos e nos aprimoramos durante décadas para adquirir a competência necessária para resolver aquilo em cinco minutos (e não em cinco horas). O profissional experiente e bem formado diagnostica o problema num piscar de olhos e aplica a solução de forma mais ágil. Ironicamente, ao fazer isso, o cliente interpreta o ato como “fácil” — só porque foi rápido.

Isso vale para qualquer área: para um médico, para um engenheiro, para um mecânico de oficina, um editor de textos ou para um profissional executando trabalhos domésticos. Da mesma forma que um editor consegue uma solução para um título ou para uma frase que até parece “mágica” para cliente, o cozinheiro resolve rapidamente um problema ajustando uma temperatura, e um médico diagnostica uma anemia só “de bater o olho”. Tudo isso é possível, mas requer experiência. Enquanto alguns serviços simplesmente não podem ser realizados em pouco tempo — edição de grandes volumes de texto, por exemplo —, outras soluções podem, sim, ser rápidas. Mas somente um profissional experiente é capaz de fazer rapidamente o que outro, por falta de prática, conhecimento ou jornadas de atendimento, faz com a mesma qualidade, porém mais devagar.

O serviço precisa ser remunerado pela competência do executor, não pela média de mercado (que inclui os mais e os menos experientes e competentes). Serviço não é geladeira: licitação e tomada de preços nem sempre são a melhor estratégia para contratação, porque o profissional que oferece o menor preço ou o menor prazo pode não ser realmente capaz de entregar o melhor serviço ou de cumprir o prazo prometido. Por outro lado, quando compreende que, desse prestador de serviço, vêm soluções rápidas, que resolvem seu problema rapidamente e bem, o cliente estabelece uma relação duradoura e de confiança com o profissional, valorizando dessa forma o trabalho. A escolha vem da competência, não do preço.

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Em duas décadas ajudando pesquisadores a publicar seus estudos científicos, percebemos um fenômeno psicológico curioso: a evolução da paranoia pré-tese para a ressaca pós-tese. Funciona mais ou menos como as fases do luto já identificadas pelos psicólogos.

 

Fase de estudo: o pós-graduando passa dois a quatro anos estudando exaustivamente o assunto. Procura e examina a literatura, discute com o orientador, com especialistas, encontra obstáculos teóricos e práticos (choque?). Enfrenta-os e encontra outros. Contorna-os, ignora-os (negação?), encara-os (raiva?), mas segue adiante. Geralmente, deixa para a última hora (negociação?) o principal: escrever a tese.

 

Fase da paranoia pré-tese: como deixou a redação para a última hora, o pós-graduando descobre que tem uma avassaladora quantidade de conhecimento armazenada… no cérebro. Proveniente de dados distribuídos em alguns hard drives, muitos pen drives, blocos de notas, papéis presos a pranchetas… Mesmo apertado pelo prazo, começa a escrever em ritmo moroso. (Depressão?) E fica, naturalmente, paranoico sobre se está esquecendo de alguma coisa. Isso geralmente se deve ao fato de não ter planejado antes os capítulos e subcapítulos da tese. O pós-graduando, na maioria das vezes, acha que um lampejo de inspiração irá salvá-lo, e as ideias passarão para o papel como um processo de “download”, automático. Baixou tudo?

 

Fase da ressaca pós-tese: salvo por um bom orientador, colega ou revisor, que conseguiu colocar ordem na sua bagunça mental, o pós-graduando escreveu (aceitação?), imprimiu, encadernou e entregou a tese. No dia marcado, enfrentou a banca e provou que sabe, sim, sobre o assunto. Mas agora, que o trabalho foi corrigido e aprovado, precisa ganhar o mundo, ser publicado. E é justamente a hora em que surge a ressaca pós-tese. Como no dia após a noite de bebedeira, o pós-graduando está cansado. Com a vista turva. Intolerante. Não pode mais ouvir sobre o assunto do estudo, que dirá falar ou escrever sobre ele.

O pós-graduando então enfrenta um novo ciclo psicológico: de choque (sim, tem que publicar para conseguir o diploma), negação (pensa na possibilidade de não publicar), raiva (tem que publicar em inglês, sim!), negociação (tem que publicar na revista escolhida pelo orientador ou em qualquer uma?), depressão (após a segunda ou terceira recusa do trabalho)… e finalmente aceitação (de que o trabalho precisa ser publicado, com qualidade, numa boa revista, portanto precisa ser produzido o quanto antes). Haja café!

 

A melhor maneira de evitar a ressaca da bebedeira é tomar muita água, comer antes de beber e… ser prudente, não exagerar no álcool, claro.

Receita da Palavra Impressa para evitar a ressaca pós-tese:

 

1) planejar a redação da publicação exigida pela universidade ao mesmo tempo em que planeja a redação da tese, com previsão de todos os seus subcapítulos, na ordem correta, e escrever esse planejamento;

2) redigir a publicação antes da defesa da tese; e

3) solicitar a revisão da tese e da publicação antes da defesa. Isso faz com que a sensação de paranoia, de insegurança antes da defesa diminua, assim como a ressaca depois da defesa.

 

Uma publicação nunca está pronta: sempre achamos que podemos melhorar alguma coisa. Mas, pelo menos, tomados esses cuidados, a paranoia vai ser bem menor.

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Editores de “house organs” devem estar atentos à qualidade e precisão das informações que publicam, pois são elas que constroem os registros históricos que serão editados no futuro.

Ao longo dos últimos anos, temos editado vários relatórios de gestão e de sistematização de projetos sociais, para diferentes instituições, contando histórias do que foi feito, como, quando. Esses textos são produzidos com base em dados coletados de várias fontes: entrevistas com os gestores dos projetos, comunicações internas (como cartas e memorandos), relatórios estatísticos e, em grande parte, material publicado na imprensa, principalmente os “house organs”, ou seja, os jornais da casa. O jornal da fundação, a revista da associação, a newsletter da sociedade médica. E aí surgem dificuldades.

Como os jornalistas que estão produzindo esses materiais estão mais preocupados com o momento presente, imaginam que não têm um papel na construção da história daquela organização. Então, contando com o “awareness” (ou consciência) que as pessoas têm naquele momento a respeito do que está sendo feito, deixam de incluir dados nos textos que são importantes mesmo para quem, dali cinco a dez anos, pode não estar imerso na situação para entender a sua repercussão. Por exemplo: um assunto que receba hoje enorme atenção da mídia, principalmente a mídia digital e a TV, pode cair no esquecimento logo mais, a menos que isso esteja registrado historicamente.

A nossa experiência permite fazer algumas sugestões muito básicas aos nossos colegas jornalistas que se envolveram com o trabalho de assessoria de imprensa e edição de material corporativo:

1) Data da publicação — em publicações impressas, como jornais, revistas e newsletters, um pequeno detalhe pode fazer toda a diferença: colocar a data de publicação num cabeçalho ou rodapé em todas as páginas. Isso facilita o trabalho do historiador e evita a perda do dado quando há desarticulação da encadernação e soltura de páginas ou da capa. A data não ocupa tanto espaço e nem atrapalha visualmente, podendo ser impressa em tom de cor rebaixado ou até como marca d’água;

2) Data do evento — em todas as matérias, em publicações impressas ou eletrônicas (como newsletters, posts em blogs e mídias sociais), a data dos acontecimentos (e não da publicação) é muito importante. Aquele que toma contato com o texto anos depois não tem como descobrir quando algo aconteceu (seja uma reunião, um acidente, uma assinatura de contrato, um evento público) só com base na data de publicação da matéria;

3) Nome completo e correto — o nome completo das pessoas, e grafado da forma correta, é essencial. “O deputado Mandettta”, por exemplo, não é o nome completo da pessoa, e isso é especialmente perigoso no caso de sobrenomes mais comuns. No início do texto, e pelo menos uma vez, deve aparecer o nome completo de cada pessoa citada (exceto para celebridades conhecidas somente pela alcunha, como “Madonna”, “Tiririca” ou “Pelé”);

4) Siglas explicitadas — o uso de siglas é sempre uma armadilha quando o redator não cuida de explicar primeiro o que cada uma significa. Muitas siglas podem ter significados diferentes dependendo do contexto e o leitor não tem obrigação de entender a “sopa de letrinhas” criada pela preguiça de digitar os termos completos;

5) Todos os dados no texto — informações que são colocadas nos títulos das matérias também precisam ser inseridas no corpo do texto principal. Quando um título diz que 150 pessoas participaram de um evento, por exemplo, a informação precisa estar presente no texto, porque a matéria poderá, no futuro, ser lida ou compilada sem o seu título. O leitor poderá procurar o dado no texto, para obter mais informações sobre ele, e não encontrar, o que reduz a sua credibilidade.

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Nossos clientes continuam sendo procurados, com frequência, com convites que receberam de revistas para a publicação de artigos. Uma rápida olhada no website dessas revistas mostra que elas não têm indexação (portanto o artigo publicado nela não é rastreável) nem boa visibilidade (justamente por isso), suas publicações são irregulares e escassas e elas estão apenas tentando ganhar dinheiro em cima dos autores cobrando taxas de publicação (de mais de 2 mil dólares por artigo). As revistas que fazem esses convites, na maioria, são justamente as de menor qualidade. E publicar nelas pode ser uma decisão equivocada.

As (boas) revistas open access nasceram de um princípio muito interessante: o direito de se ter acesso, gratuitamente, aos resultados da pesquisa publicada no mundo todo. E realmente muitas boas, importantes e qualificadas revistas open access foram criadas nesse contexto, como a PLOS, por exemplo, considerada uma das melhores do mundo. Existem milhares de bons exemplos de revistas open access, que são de qualidade e têm boa reputação. Estas boas revistas têm sistemas de avaliação por pares bem definidos e organizados e não publicam qualquer coisa. Por isso, seus artigos são bem citados e elas conseguem bons fatores de impacto. Boa parte delas está listada no Diretório de Revistas Open Access https://doaj.org/.

No entanto, como essa modalidade de publicação é financiada pelo autor do artigo, o “open access” transformou-se num filão comercial altamente lucrativo. E começaram a surgir revistas publicadas por instituições que não são exatamente comprometidas com a ética e com a qualidade na publicação científica. Essas editoras não têm pudor algum em publicar artigos que passaram (se é que passaram) por processos de revisão por pares de qualidade muito duvidosa e com falta de padronização e transparência. Elas ganham no volume e enganam muitos pesquisadores, tanto os jovens como os mais experientes, prometendo publicação rápida. Quando publicam. São as chamadas revistas open access predatórias, por realizarem uma “concorrência desleal” com as revistas sérias e de qualidade.

Ao publicar seu artigo numa revista predatória, o autor pode desperdiçar um bom trabalho numa revista que não dá a menor garantia de que vai continuar no ar daqui a alguns meses. As revistas open access chamadas de predatórias têm meia-vida curta, enquanto as de qualidade permanecem, e têm muitos volumes publicados. É recomendado verificar o website de uma revista open access antes de pensar em enviar um artigo para publicação: seu profissionalismo e sistema de revisão por pares ficam transparentes na página oficial. O nome e o currículo do editor-chefe denuncia se a revista tem condições de sustentabilidade. E o endereço oficial deve ser claro e transparente — e não uma cabana no meio da floresta.

Estas são nossas recomendações para evitar jogar um bom artigo científico numa revista predatória:

1) Não aceite convites: se recebeu um convite por e-mail, desconfie. Muito raramente um editor de uma revista internacional de qualidade precisa enviar convites para receber artigos, porque as revistas de qualidade já estão abarrotadas de submissões e conseguem publicar somente uma pequena parte do que recebem. Convites, quando acontecem, são pessoais, e não chegam por meio de mensagens de e-mail coletivas (e sim do editor diretamente ao autor). Se recebeu um convite com apenas parte de seu nome, desconfie, pois você pode ter sido “pescado” por um robô enviando milhares de mensagens iguais, e não por um ser humano. Nunca aceite convites sem examinar a revista primeiro.

2) Indexação: verifique, em primeiro lugar, se a revista está indexada (em bases como o PubMed, Embase, LILACS, ISI). Não desperdice esforços publicando em revistas não indexadas. Se necessário, peça ajuda a um bibliotecário, numa biblioteca pública. Não custa nada.

3) Coleção da revista: verifique quantos volumes e fascículos a revista já publicou, e se publicou um número considerável de artigos em cada um. Revistas novas não são indexadas, porque é necessário atingir um certo número de publicações, com regularidade e adequado processo de revisão por pares para se conseguir uma boa indexação. Uma revista com três ou quatro artigos publicados em toda a sua história não atingiu, certamente, um nível de qualidade mínimo e nem regularidade na publicação. Provavelmente não é indexada e não vai conseguir indexação no futuro.

4) Editores: quem são o editor-chefe e os membros do Conselho Editorial? São autoridades na área? Têm eles boas publicações? A reputação da revista está em grande parte baseada no trabalho dos editores. Cuidado também com revistas que usam nomes “parecidos” com os de grandes editoras, como “Spring” (parecida com a editora Springer).

5) Apoio: a revista tem respaldo ou apoio de uma sociedade científica reconhecida? A falta de apoio pode revelar, por um lado, independência, mas por outro pode denunciar falta de reputação. O apoio de uma sociedade ou associação é um ponto positivo.

6) Qualidade do website: páginas com “ar caseiro”, simples, mal organizadas ou com jeito de que foram produzidas sem apoio profissional denunciam revistas que não têm infraestrutura suficiente para serem sustentáveis.

7) DOAJ, o Diretório de Revistas Open Access: consulte! Esse diretório traz uma “lista branca” de boas revistas open access: https://doaj.org/. A presença na lista produzida pela DOAJ, uma organização social sem fins lucrativos, é um bom sinal de qualidade da publicação. O DOAJ, quando suspeita de falhas de conduta das revistas, teoricamente remove essas publicações de sua lista.

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O EQUATOR Network, rede que produz diretrizes para publicação de artigos científicos, acaba de receber o Prêmio do Conselho de Editores Científicos 2017. O prêmio é concedido a pessoas ou instituições que se dediquem à melhora da comunicação em ciência por meio da busca de altos padrões de atividades ligadas à edição. O prêmio foi concedido para “honrar as contribuições e esforços do EQUATOR Network em promover a conduta ética, a redação e a publicação de trabalhos científicos”. A diretora do EQUATOR, Iveta Simera, recebeu o prêmio e avaliou: “este prêmio é um reconhecimento fantástico, não somente para toda a equipe do EQUATOR mas também para todos os que apoiam nossos esforços”.

A Palavra Impressa procura adotar as diretrizes do EQUATOR na edição dos artigos científicos na área de saúde, e procura apoiar os esforços para sua divulgação.

Mais informações em: https://www.ndorms.ox.ac.uk/news/equator-network-honoured-by-the-council-of-science-editors

 

 

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Estávamos numa sala de aula cheia de pesquisadores, discutindo quatro títulos de seus trabalhos, editando na hora, inserindo em tela as sugestões de todos. Esse tipo de experiência de trazer a prática para a didática permite que coisas interessantes aconteçam — tanto para professor quanto para o aluno.

A proposta era que cada pesquisador trouxesse o seu projeto de pesquisa com um título provisório, que digitamos num slide projetado. Depois de explicar alguns princípios básicos sobre as exigências das revistas científicas quanto aos títulos (teoria: menos de cinco minutos), passamos a aprimorar o que estava ali digitado, usando as diretrizes que foram discutidas antes e também as sugestões e críticas dos demais.

Na plateia, doutores, mestres, bacharéis e alguns alunos de graduação fazendo trabalhos de iniciação científica. Desconstruímos alguns preconceitos e vícios dos mais experientes, aprendemos alguns termos novos das áreas de estudo, e resolvemos alguns desafios sobre como falar mais em menos palavras.

Até que… deparamos com um problema difícil de resolver. Ninguém na sala sabia como expressar a existência de três grupos de estudo num dos títulos, sem alongá-lo demais. Propusemos então algo que, vez por outra, se mostra útil na edição de textos — embora muitos clientes se mostrem céticos: a espera com distanciamento.

Ficar longe de um texto (ou de um título) por algum tempo cria um distanciamento que nos permite ser críticos. Possibilita, também, maior contato com outros textos, outras inspirações, que despertam naturalmente novas soluções para um problema que parecia insolúvel. Falaremos sobre isto em outro post.

Propusemos, naquela aula, cuidar de outros aspectos daquele título por alguns momentos — o desenho do estudo, o nome da técnica utilizada, outros detalhes — e fomos resolvendo essas coisas, lapidando o texto por alguns minutos, quando, do fundo da sala, veio a solução: bastava simplesmente substituir uma palavra “e” por “ou”, sugeriu um colega. A mágica veio de um aluno de iniciação científica, talvez o menos experiente do grupo — e com certeza o que estava mais distanciado do problema!

Assim finalizamos a dinâmica do dia: alguns satisfeitos porque conseguiram editar, eles mesmos, os títulos de seus trabalhos de pesquisa; a direção porque sentiu que a equipe saiu um pouco mais habilitada a escrever bem, mesmo os que estavam trabalhando com títulos dos trabalhos dos outros; nós porque sempre podemos orientar melhor e prestar melhores serviços de edição quando entendemos bem as dificuldades dos clientes.

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Ao preparar a tradução de um regulamento para submissão de resumos para um congresso brasileiro, deparamos com o desafio de traduzir a expressão “tema livre”. O médico brasileiro entende bem quando se diz “apresentou o trabalho como um tema livre no congresso”… Mas se fizermos uma tradução literal para “free themes“, qualquer pesquisador falante da língua inglesa do resto do mundo provavelmente não vai entender. Então preferimos usar a expressão “abstract“. Porque, na realidade, o participante submete para o comitê de avaliação do congresso um resumo de seu trabalho e diz se pretende apresentá-lo na forma oral (geralmente terá em torno de cinco minutos para fazer isso) ou na forma de um painel (pôster) impresso ou eletrônico.

Mas de onde veio essa expressão “tema livre”, tão arraigada entre nós, brasileiros? Provavelmente encontraremos resposta na história do desenvolvimento de congressos médicos por aqui (história, aliás, que já editamos e publicamos aqui na Palavra Impressa).

Essa tradição brasileira de chamar a apresentação de “tema livre” vem desde o tempo em que as sociedades médicas tinham meia dúzia de associados, especialistas que se reuniam em algum lugar em “algo” que chamavam de congresso (e que tinha menos de 100 participantes). As sociedades ou associações davam aos “luminares” da especialidade um espaço para falar e eles faziam apresentações demoradas sobre o tema que quisessem — porque eram autoridades máximas na área, então todos queriam ouvir. Traziam relatos de caso, de experiências próprias, falavam por horas. Eram, realmente, temas livres.

Hoje, num congresso reunindo 5 mil pessoas (como por exemplo, o Congresso Brasileiro de Ortopedia e Traumatologia), não se pode mais dar esse mesmo tempo, e nem abrir muito os temas. Os temas, na realidade, não são mais “livres” coisa nenhuma…. São rigorosamente selecionados por um comitê de avaliação que passa semanas revisando todos os resumos submetidos. Então, embora não sejam mais “livres”, os médicos ainda chamam os “resumos” (abstracts) de temas livres aqui nas nossas terras tupiniquins.

Clique aqui: 40 Congressos Brasileiros de Ortopedia e Traumatologia

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Na semana passada, várias pessoas nos enviaram os parabéns pelos 21 anos da Palavra Impressa. (Dicas do LinkedIn!…). Pensamos: “ora, por que é que ano passado não falaram nada?” Claro, 20 anos não significam nada, mas o 21º aniversário parece que celebra uma certa “adultez”.

Isso fez pensar no que é que caracteriza este projeto — a esta altura, uma realização. E talvez uma pequena descrição de um dia na Palavra Impressa, ou de uma semana, ou de algumas horas, possa mostrar o que podemos fazer por você.

Ontem, fizemos uma visita a um hospital, onde discutimos com um cirurgião de joelho, linha por linha, um artigo científico que ele havia escrito — e onde seu mais importante achado ainda estava escondido. Antes disso, já havíamos despachado para impressão quatro artigos de uma das revistas de medicina que editamos, e que careciam de solução para pequenos detalhes. No caminho para o hospital, contatamos o nosso estatístico para dar a ele orientações sobre um gráfico que precisava ser adicionado a uma prova de outro artigo de cliente nosso, já no prelo. 

Na volta do hospital, conversamos pelo telefone com um fisioterapeuta que precisava de ajuda para formatar sua aula de mestrado. Ao chegarmos, editamos a imagem do gráfico do outro cliente, juntamos com uma carta ao editor e a prova corrigida e enviamos para a revista usando sistemas eletrônicos. Depois, finalizamos a revisão da tese de uma psicóloga, adicionando uns dados que a autora acabara de enviar em separado, e saímos novamente, agora para outro hospital. 

O primeiro hospital, que visitamos pela manhã, era bem diferente: filantrópico, de serviço público, cheio de desafios de infra-estrutura e de pacientes em macas nos corredores. O segundo está cotado como um dos melhores e mais luxuosos do Brasil. O cliente ali tinha um projeto de pesquisa para agência de fomento… que não iria conseguir convencer o agente avaliador a lhe dar financiamento. Editamos juntos o texto para que ficasse mais claro, conciso e consistente, além de convincente. A reunião aconteceu no departamento de pesquisa clínica da instituição, onde a convivência com outros pesquisadores e gestores de pesquisa é sempre enriquecedora. De volta ao escritório, terminamos a tradução de um artigo que já estava quase pronto, e enviamos para publicação numa revista britânica.

Um dia tão mergulhado em estudos da área de saúde pode fazer pensar que só trabalhamos com isso. Mas os diários aqui na Palavra Impressa podem ser variados — e apetitosos por isso. Nós também ajudamos advogados, contadores, engenheiros, administradores de empresas e de pessoas, designers e jornalistas com seus estudos (projetos, dissertações, teses, trabalhos de conclusão de curso, relatórios de pesquisa). Manuscritos acadêmicos de várias áreas — porque nós adoramos aprender.
Fora da academia, também temos ajudado as pessoas e organizações com seus textos. Formatamos e ajudamos nossos clientes a apresentarem suas aulas. Escrevemos currículos e cartas de apresentação para velhos clientes que estão tentando novos projetos de vida mundo afora. Fazemos reportagens. Participamos da edição de livros sobre vários temas, incluindo vários registros históricos e de projetos sociais desenvolvidos por fundações respeitadas no Brasil e no mundo (sim, já trabalhamos para a Organização Mundial de Saúde). Temos colaboração voluntária com a Cochrane, realizando a revisão de textos que são traduzidos por outros voluntários no Brasil todo. E essas histórias nós contamos não só em forma de artigos científicos, mas também de exposições que montamos em eventos, participações em congressos internacionais, entrevistas, textos para sites visitados por leigos, incluindo revisão e edição de entradas da Wikipedia.

Para leigos? Sim, claro. Todos têm direito à informação. Nós, da Palavra Impressa trabalhamos todos os dias para que os especialistas possam levar a público o resultado de seus trabalhos: sobre saúde, sobre cidadania, sobre direitos. Só assim o avanço das ciências vai poder beneficiar o maior número de pessoas.

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Acabamos de retornar da Coreia, onde participamos do Colóquio da Cochrane, uma instituição devotada à produção evidências de qualidade para a tomada de decisões em saúde. A Cochrane produz revisões sistemáticas da literatura médica, e alerta: mais de 40% dos dados produzidos por pesquisas no mundo todo na área de saúde simplesmente não são publicados.

Essa enorme quantidade de dados fica engavetada por vários motivos: dificuldade dos autores de escrever e publicar os artigos, barreiras de língua, falta de exigência ou de monitoramento por parte dos organismos que financiam a pesquisa, falta de apoio para a publicação… para desespero dos autores de revisões sistemáticas, que ficam sem matéria-prima para trabalhar. Os artigos não publicados são um grande ponto de interrogação para os autores das revisões. A Cochrane tem discutido em profundidade esses temas.

As revisões sistemáticas e as metanálises produzem sínteses que ajudam as pessoas, seus médicos e os gestores em saúde a tomar decisões sobre procedimentos como novos métodos de tratamento, prevenção ou diagnósticos. O que é que realmente funciona? Só que, se os dados não são publicados em artigos, como revisá-los? Talvez a tendência de realizar metanálises de dados de participantes individualmente (IPD) seja uma luz no fim do túnel.

Os dados individuais só podem ser revisados e incluídos nas metanálises se forem publicados em bases de dados públicas. Isso significa que, cada vez mais, as revistas e as instituições de fomento de pesquisas em saúde vão passar a exigir (e algumas já estão exigindo, como por exemplo a revista PLOs) que os autores publiquem os dados individuais de seus pacientes (claro que com identificações ocultas) em bases de dados públicas. Assim, outros pesquisadores, no mundo, podem acessar essas informações para realizar análises adicionais, mesmo antes da publicação dos artigos em forma de texto.

Os autores precisam estar atentos a essa tendência: manter bancos de dados (planilhas) formatados adequadamente e publicar esses dados em bases eletrônicas, que já estão disponíveis, é uma forma de demonstrar transparência e postura colaborativa. Quando e se a revista exigir, os dados já estão lá, prontos para qualquer escrutínio.

Essa tendência se segue à exigência, também cada vez maior, de registros de estudos clínicos a serem iniciados ou em andamento em bases como clinicaltrials.gov ou o brasileiro ReBEC (Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos). Já não é mais possível publicar um artigo sobre um estudo clínico sem ter antes registrado o estudo. Após a publicação do artigo científico, o autor deve também registrar os resultados na mesma base onde registrou o protocolo do estudo.

Estamos atentos a isso e temos recomendado, a nossos clientes, que façam esses registros (de protocolos ensaios clínicos e de dados individuais dos pacientes). A cultura será difícil de mudar, e teremos de nos acostumar… Caso contrário, a dificuldade de publicar vai ser cada vez maior.

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