Sobre edição de textos científicos
Dicas e discussões sobre a edição de textos da área científica

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O projeto gráfico de um veículo de comunicação, seja uma revista científica, seja um cartaz ou um website, na nossa visão, está atrelado à função editorial designada ao produto. O projeto editorial de um jornal diário local não é o mesmo de uma revista como a Nature, assim como o planejamento editorial de um house organ impresso difere bastante daquele de um website institucional. Assim, necessariamente, o projeto gráfico de um produto tem de considerar o projeto editorial em primeiro lugar.  Já escrevemos aqui sobre a importância do Projeto Editorial.

Diferentemente do passado, quando a composição das páginas era dificultada por poucos recursos técnicos (linotipos, montagem em fotolito), a era dos programas de diagramação (PageMaker, QuarkXpress, InDesign) trouxe flexibilidade e liberdade para o trabalho do diagramador. É realmente possível fazer quase tudo numa página hoje! Porém, num projeto gráfico bem construído, certos limites precisam ser estabelecidos e seguidos, para que o visual da página individual não fique comprometido.

Antigamente, na produção de jornais, não tínhamos como interferir, por exemplo, no espaçamento entre letras ou entre palavras. Os jornalistas tinham que ser hábeis na construção de títulos que se encaixassem perfeitamente na largura das colunas, considerando que letras como m, n ou o ocupam mais espaço na largura do que i, t, l. No jornal Diário Popular, onde trabalhei, havia até competição entre os editores sobre quem conseguia acertar um título de primeira! Hoje, o jornalista escreve o título que quer e deixa para o diagramador a tarefa de “fazer caber”. Porém até que limite o diagramador pode “espremer” ou “esticar” uma linha ou um parágrafo? O tamanho dessa liberdade é diretamente proporcional à qualidade visual do produto final: uma linha esticada demais logo acima de outra, espremida demais, mostra ao leitor falta de cuidado na composição gráfica daquele produto.

Esses limites, determinações e possibilidades precisam ser determinados por um projeto gráfico de periódico. Além de ser positivo para o produto em si, o projeto gráfico também facilita a vida das equipes. Assim como o projeto editorial (sobre o qual já escrevemos), o projeto gráfico torna o briefing para contratação de pessoal muito mais fácil em caso de troca de diagramadores ou de produtores de texto. Dessa maneira, todos atuarão com base em um documento, uma norma preestabelecida, que serve como guia. Se existe muita rotatividade na contratação de profissionais (no caso, por exemplo, de free lancers), todos precisam operar segundo um código comum, para que o editor tenha chance de cuidar do conteúdo e do direcionamento do produto, e não de detalhes como uma linha que escorregou para outra página ou uma palavra hifenizada incorretamente.

Em se tratando de revistas científicas, o projeto gráfico precisa considerar alguns elementos sensíveis, tais como a escolha de fontes adequadas para a leitura de textos que podem ser longos (em oposição aos textos publicados na internet, por exemplo) e a composição de figuras do tipo organograma. Outro elemento importante é a previsão de modelos de tabelas, grandes ou pequenas, e seus títulos e legendas, de maneira que a disposição de dados numéricos, muito comuns em publicações científicas, fique clara para o leitor. A previsão de hierarquia de títulos, subtítulos e intertítulos precisa ser estabelecida num projeto descrito num documento, de maneira que qualquer profissional designado para trabalhar com o produto possa saber como se portar nas diferentes situações.

Exemplos de como o projeto gráfico pode ajudar: o que fazer quando uma tabela não “cabe” na página onde deveria estar? Encolher? Pular a página? Quebrar em duas páginas? Como proceder no caso de títulos muito longos? Como tratar casos de “viuvinhas”, “linhas órfãs” e outras anormalidades assim, que produzem efeito visual de descuido e podem facilmente ser evitadas. São erros gráficos básicos.

É claro que o documento do projeto gráfico (que é composto não somente de imagens ou modelos de páginas, mas principalmente de texto descrevendo as situações) pode e deve ser alterado de vez em quando conforme a prática diária exija (por exemplo, quando novas situações, seções ou elementos surgem e precisam ser desenhados e previstos no projeto). Porém a oficialização do documento de projeto gráfico confere uniformidade para o veículo de comunicação.

 

Órfãs, viúvas ou “forquinhas” ou “enforcadinhas”

Estes termos estão longe de serem técnicos ou científicos: há muita discordância entre diferentes diagramadores ou editores sobre essas definições, mas basicamente,

  • Viúva: palavra solitária ou linha isolada no início de uma página ou coluna, “escapando” de outra página ou coluna. Em qualquer caso, ela foi abandonada!
  • Forca, ou “enforcadinha”: pedaços de palavras que foram hifenizadas e que ficaram no final de um parágrafo, sozinhos
  • Órfã: linha ou palavra isoladas na última linha de uma página.

viuvinhas

 

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Um médico que atendeu os doentes de um serviço é autor de um artigo científico produzido por outros médicos do mesmo departamento?

O chefe da cadeira de uma faculdade deve assinar todos os artigos científicos publicados pela sua equipe?

Estatísticos são autores dos artigos das pesquisas que assessoraram?

Editores de texto ou tradutores devem assinar como autores de artigos?

Essas perguntas estão cada vez mais presentes no dia a dia das equipes de pesquisadores. Antigas tradições vêm sendo questionadas e as revistas que publicam os artigos têm ficado mais atentas às definições de autoria.

Os comitês de editores científicos da área de saúde têm discutido e tomado cada vez mais decisões a respeito de quem pode e quem não pode ser considerado um autor de um artigo. Os critérios do International Committee of Medical Journal Editors (ICMJE) já haviam sido definidos há muitos anos, e incorporados às normas das revistas. Esses critérios, no entanto, têm evoluído. Todas as revistas signatárias dos requerimentos do ICMJE obrigatoriamente adotam os seguintes critérios (nossa tradução) e algumas são mais explícitas quanto a um ou outro:

1) O autor deve ter feito contribuições significativas para a concepção ou desenho do estudo ou para a coleta e análise ou interpretação dos dados;

2) O autor deve ter escrito o artigo ou revisado o texto criticamente quanto ao conteúdo;

3) O autor obrigatoriamente tem que ter lido a versão final a ser enviada para a revista e ter dado sua aprovação;

4) O autor declara-se responsável por todos os aspectos do estudo, assegurando que as questões de acurácia e integridade de todas as partes do trabalho foram investigadas e resolvidas apropriadamente.

O detalhe é que não basta cumprir com uma das premissas acima: é preciso cumprir com todas as quatro. A última foi recentemente adicionada e, na nossa opinião, deveria vir em primeiro lugar, pois é definidora da responsabilidade de um autor. Em artigos da área de saúde, que têm enorme impacto nas políticas públicas e diretrizes de cuidados, isso é particularmente importante: o autor deve se responsabilizar pelo trabalho que assina. Ter conduzido o tratamento de pacientes não necessariamente quer dizer que o médico é autor do relatório científico sobre essa experiência. Revistas como British Medical Journal e Journal of Arthroplasty já declaram em suas normas para autores que o envolvimento com o cuidado do doente deve ser reconhecido na seção de agradecimentos do artigo, e não na lista de autores.

Artigos simples (relato de um caso, por exemplo, ou mesmo relatos de séries de caso, envolvendo somente levantamento de prontuários) dificilmente conseguem justificar a participação de um número muito grande de pessoas. Mesmo os que são multicêntricos, e que, portanto, exigiriam pelo menos uma pessoa por instituição para coletar dados, não podem ter autores demais, pois nem todos os que participam da coleta podem responsabilizar-se pela análise, pelas conclusões, pelo texto.

Algumas revistas estabelecem o número máximo de autores que consideram razoável para cada tipo de artigo (quatro ou seis, por exemplo). Outras não fixam um número, mas solicitam uma justificativa de autoria para todos os autores de todos os artigos. E outras ainda não se preocupam com essas questões, limitando-se a pedir formulários de transferência de direito autoral assinados por todos, sem investigar se cada autor é um autor mesmo.

O fato é que “gift authorship” (autoria que é concedida como um presente a um colega ou chefe), “guest authorship” (autoria que é falsa, mas solicitada a grandes autoridades como forma de “impressionar” os revisores das revistas) e outras práticas assim já estão na mira das revistas e convém ter atenção às normas para evitar constrangimentos. Tanto daquele que solicita autoria do “figurão” quanto daquele que concorda em assinar um artigo sobre o qual não tem nenhum controle nem pode assumir responsabilidade.

Portanto, as diretrizes atuais apontam que:

Não: um médico que atendeu os doentes de um serviço não é autor de um artigo científico produzido por outros médicos do mesmo departamento, embora deva ser reconhecido na seção de agradecimentos (Acknowledgements) da revista;

Não, o chefe da cadeira de uma faculdade não deve assinar todos os artigos científicos publicados pela sua equipe, pois seria humanamente impossível que pudesse se responsabilizar, revisar, analisar dados e escrever todos eles. Mesmo que esse chefe seja um excelente e produtivo pesquisador, a prática rotineira de assinatura automática tende a cair em desuso;

Estatísticos não são autores dos artigos das pesquisas que assessoraram, pois nem sempre atuaram na concepção, na coleta de dados ou na revisão crítica dos textos. Geralmente, esses profissionais atuam como consultores, de forma pontual. Muitas vezes sequer leem o artigo pronto. Podem ter seu trabalho reconhecido também na seção de agradecimentos;

Editores de texto ou tradutores não devem assinar como autores de artigos, pois não participaram da elaboração do estudo, somente atuam na melhoria do texto, e não podem se responsabilizar por seu conteúdo científico.

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No atendimento a nossos clientes, temos percebido que há  incoerências entre as instruções para autores das revistas e o que é efetivamente praticado nos seus sistemas eletrônicos de submissão. Isso ocorre porque as revistas contratam sistemas de submissão pré-formatados, e nem todas as funcionalidades podem ser adaptadas à realidade de cada revista.

 

Exemplos de incoerências são:

 

– as normas ou instruções para autores declaram que o resumo “deve ser estruturado” (o que significa que deve conter subtítulos como “introdução”, “métodos” etc.), mas a revista devolve o artigo solicitando um ou mais itens que não estavam descritos na norma (por exemplo, pedem para inserir ou para tirar “discussão”); ou devolve solicitando que o abstract seja disposto em parágrafo único (coisa que não está descrita na norma);

 

– a norma da revista pede que seja adicionada uma declaração de conflitos de interesse dos autores, mas não especifica onde. Após a submissão eletrônica, o artigo é devolvido com a solicitação que essa declaração, que foi inserida no final do texto, seja colocada na “cover letter” ou vice-versa, ou que a declaração seja inserida na página de título e não no final do artigo;

 

– a revista não oferece uma carta de modelo padrão, mas devolve o artigo dizendo que determinadas declarações têm que constar na “cover letter” usando determinadas palavras: o autor não pode redigir a sua carta dizendo as mesmas coisas de outra maneira. Com isso, precisamos editar a carta, copiando e colando as frases-padrão exigidas pela revista;

 

– a norma da revista pede que tabelas e figuras sejam dispostas em documentos separados, mas o sistema de submissão não prevê esse tipo de documento, obrigando-nos a submeter tudo, texto, tabelas e figuras, em conjunto; o que teoricamente seria descumprir as normas;

 

– a revista não deixa claro em suas normas mas exige, durante a submissão eletrônica, que sejam indicados revisores para o trabalho (referees), sendo que algumas não permitem a finalização da submissão sem nome, endereço e instituição de um número mínimo de revisores;

 

– as revistas falam em “número máximo de figuras e tabelas”, mas após a submissão, devolvem o artigo dizendo que o número máximo declarado nas normas era um total, considerando tabelas e figuras em conjunto. Assim, se o número máximo era, por exemplo de 5 “tabelas e figuras”, o autor é obrigado a submeter somente 3 tabelas e 2 figuras, e não 5 tabelas e 5 figuras como feito inicialmente.

 

 

Resolvemos esse tipo de problema rotineiramente, para que o envio dos artigos de nossos clientes não se atrase. Também enviamos comunicados aos editores a respeito das incoerências para que possam alterar, se não o sistema de submissão, pelo menos as normas, deixando-as mais claras. Conduzimos esse tipo de comunicação entre autor e editor para facilitar a vida de nossos clientes, e assim resolvemos pequenas pendências burocráticas que podem emperrar o processo de submissão, avaliação, aprovação e publicação. Tiramos essas pequenas pedras no meio do caminho.

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Nem sempre os clientes têm noção de todo o trabalho, competências e atribuições de um editor envolvido com textos da área científica. Muitas vezes, essas atribuições ficam escondidas, e os autores têm dificuldade de valorizar o trabalho.

Algumas das coisas que o editor faz:

– atua como um primeiro leitor ou, principalmente, um leitor não envolvido com o trabalho, o que lhe dá oportunidade de fazer uma revisão crítica e de enxergar problemas que as pessoas envolvidas nem sempre conseguem ver

– justamente por não estar envolvido com o trabalho, pode reorganizar as estruturas do texto de maneira mais lógica para o leitor, ajudando a manter o texto focado e a transmitir a mensagem principal mais diretamente

– identifica e remove (às vezes com ajuda do autor) ambiguidades do texto; verifica a consistência das mensagens ao longo dos vários blocos de texto

– melhora a clareza do texto, promovendo modificações na redação (edição do texto propriamente dita)

– seleciona o melhor estilo para cada caso, e cuida para que um padrão seja mantido ao longo do texto; elimina jargão

– assegura o cumprimento de normas

– corrige ortografia e gramática na língua que está sendo usada

– seleciona as figuras que podem ajudar na compreensão do texto, eliminando as desnecessárias; cuida para que elas estejam bem formatadas e que não haja problemas legais no seu uso

– ajuda a fazer com que o texto seja mais atraente para o publisher (a editora ou revista que vai publicar a peça)

– ajuda o autor a redigir melhor a sua mensagem

– ajuda a administrar projetos maiores de comunicação, que envolvem texto, imagens, vídeo etc., o que às vezes exige lidar com gráficas, transportadores e outros.

A Palavra Impressa não é uma empresa de tradução de papers. A Palavra Impressa é uma consultoria de edição de textos da área científica e relatórios técnicos da área social para diferentes públicos.

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Nossos clientes ficam decepcionados quando são proibidos ou desencorajados a divulgarem o resultado de suas pesquisas para a imprensa leiga, antes da publicação do artigo científico. Realmente, para quem trabalha para o bem comum, a maior divulgação possível de um novo conhecimento é o que se deseja. Não divulgar é decepcionante.

 

Porém o “embargo” que as editoras científicas impõem aos autores tem também sua razão de ser. É importante compreender por que ele existe.

 

O embargo é um período de tempo exigido pelas revistas (os “journals”) científicas entre a publicação do artigo científico e a divulgação pela imprensa leiga. Primeiro, os resultados da pesquisa têm que sair na forma de artigo científico completo. Depois (e o período varia de revista para revista), podem ser divulgados pela imprensa leiga para a população geral.

 

Por que existe o embargo?

 

Primeiro: se por um lado há editoras comprometidas com a divulgação da ciência, e que publicam os artigos de graça para todos, há outras que sobrevivem de assinaturas. Ao perderem a primazia para a imprensa geral, essas editoras perdem “clientes”, veem a imprensa leiga como suas “concorrentes”. Da mesma maneira como um jornalista vê outro jornalista, de outra revista ou jornal, como seu “concorrente” em busca do “furo” de jornalismo.

 

Segundo: o autor assina sempre um termo de transmissão de direito autoral (em inglês, “copyright transfer”, ou “direito de copiar”, direito de publicar) para a revista científica. Estaria, portanto, rompendo um acordo ao divulgar para o público leigo primeiro os resultados científicos que a revista científica revisou, aprovou e montou para publicação. Assim, romper o acordo pode resultar em sanções judiciais por parte da revista científica.

 

Terceiro: as grandes revistas científicas das grandes editoras têm departamentos de divulgação que cuidam de enviar aos jornalistas os resultados mais contundentes que estão sendo publicados. Em press-releases oficiais, elas enviam, alguns dias antes da publicação, uma explicação completa sobre o trabalho científico, dando tempo para que os jornalistas compreendam os dados e entrem em contato caso seja necessário. O JAMA, por exemplo, envia esses releases uma semana antes da publicação. Isso permite que não haja erros por parte dos jornalistas quanto à compreensão das descobertas científicas. Em troca dessa assistência, o jornalista tem de concordar em manter o “off” (ou seja, manter segredo) sobre a pesquisa até que a revista científica publique o “paper”. Quando um jornalista tenta “passar na frente”, dar um “furo de reportagem”, divulgando os resultados de um trabalho científico que ainda não foi publicado, corre o risco de escrever mal. Pela pressa, ao compreender mal um dado científico ou seu significado para a sociedade, o jornalista pode atropelar a ciência e se juntar ao time dos maus divulgadores. O tempo de embargo é útil para o estudo.

 

Quarto: O embargo também permite que os pares do pesquisador possam receber primeiro os resultados dos colegas, antes do público leigo. Assim, se um químico tem oportunidade de ler um manuscrito recém-publicado numa revista técnica-científica, pode depois dar uma entrevista aos jornalistas sobre os resultados do colega com maior conhecimento e segurança sobre o que foi feito. Se, por outro lado, um médico fica sabendo de um resultado importante em saúde pública pela imprensa, e não pela revista científica, não pode responder bem a seu paciente, que o enche de perguntas sobre aquele novo tratamento, o novo exame. Ele precisa de tempo para analisar melhor o material antes de ser chamado a se pronunciar.

 

O embargo não impede o pesquisador de falar sobre seus achados para seus pares, por exemplo, em congressos ou reuniões científicas fechadas para cientistas. Porém, deve sempre se lembrar que podem haver jornalistas leigos na platéia, tentando “pescar” novidades que nem sempre podem compreender bem. Partindo do princípio de que o artigo que ainda não foi publicado ainda não teve um completo processo de revisão por pares (peer-review), ainda não foi aprovado para publicação, isso pode ser perigoso. Antes da publicação oficial, qualquer resultado é preliminar.

 

O embargo não impede que o cientista avise autoridades a respeito de seus achados, antes da publicação (por exemplo, avisar sobre uma alta taxa de efeitos colaterais de um medicamento, que compromete sua segurança). Também não impede que o cientista amplie a divulgação de seu trabalho para um número grande de outros cientistas: para isso existem as revistas open-acess, que publicam o artigo completo de graça na internet, sem necessidade de assinatura prévia. Uma vez publicado o artigo científico na revista, o cientista pode divulgá-lo, enviando o link ou o pdf do artigo para colegas. (Ou mesmo para a imprensa, mas não antes da publicação).

 

Dar entrevista sobre o próprio trabalho, sobre as próprias impressões, opiniões e visão da ciência é direito de todo cientista, a qualquer tempo. Usar a imprensa leiga, aberta, para divulgar resultados (dados) de uma pesquisa específica que está sendo objeto de revisão ou já programada para ser publicada numa revista científica… é rompimento de acordo na maioria dos casos. É bom tomar cuidado.

 

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Quem submete um trabalho científico para publicação numa revista internacional e o recebe de volta com críticas como “revisar a linguagem”, “revisar quanto à gramática” ou “corrigir numerosos erros gramaticais” nem sempre imagina que, assim como na língua portuguesa há discussão sobre o uso correto de certas palavras e pontuações, também na língua inglesa nem tudo é “preto no branco”. Apesar de geralmente mais simples e prática do que a língua portuguesa, a inglesa também traz desafios para o revisor. Um exemplo clássico é a rotineira colocação de vírgula antes de “e”.

 

Em português, aprendemos na escola que, numa listagem, por exemplo, em que se usa “e” como conjunção aditiva (comprou bananas, laranjas e maçãs), não se usa a vírgula antes do “e”, ou seja, antes do último item relacionado. Nesta situação específica, porém, na língua inglesa, há enorme discussão a respeito. Esse tema de debate é chamado de “serial comma” e há argumentos contra e a favor da inserção da vírgula numa frase como “he bought bananas, oranges and apples/he bought bananas, oranges, and apples”.

 

Em português, defendemos que não é necessário o uso de vírgula antes de “etc.”, justamente porque “etc.” é a contração da expressão latina “et cetera” (e outros) e, por conter a partícula “e” como conjunção aditiva, não requer o uso da vírgula. Porém, em inglês, a discussão sobre a vírgula antes de “and” se estende para “etc.”, de maneira que é muito comum ver frases como “he bought bananas, oranges, apples, etc.”. Multiplique esse uso por algumas dezenas de ocorrências num artigo científico… E o resultado é uma possível crítica de um referee, não especialista em edição de texto, dizendo que o trabalho contém “muitos erros gramaticais”. É um risco.

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Publicação redundante ou em duplicata, de acordo com o Comitê Internacional de Editores de Periódicos Médicos (ICMJE), é a veiculação de um artigo que se sobrepõe substancialmente a outro já publicado (em meio eletrônico ou impresso, não importa). O Comitê considera que os leitores de periódicos da área de saúde têm o direito de confiar que o que estão lendo é original, novo. Esse posicionamento está embasado em leis de direito autoral internacionais e em condutas éticas, principalmente. Há também que considerar o custo de se solicitar a revisão por pares e a edição trabalhosa de um manuscrito… que já foi publicado. Desperdício.

 

A maioria das revistas científicas declara em suas normas que não aceitará artigos que não sejam originais, ou seja, artigos que já tenham sido publicados ou submetidos a outros periódicos não serão aceitos. Ao acatar essa norma, o autor responsável se compromete a não publicar duas vezes o mesmo artigo em dois lugares. 

 

Uma vez flagrada a publicação dupla do mesmo estudo, o editor pode editar, à revelia do autor, uma nota de desagravo, com ou sem a explicação do autor, o que pode ser politicamente bem ruim para um autor que deseja continuar publicando. E, dependendo do caso, o autor pode até ser acionado judicialmente.

 

Temos deparado com esse problema na Palavra Impressa: autores querem publicar um mesmo artigo (os resultados de uma tese, por exemplo) em dois periódicos diferentes para cumprir exigências das faculdades onde fazem pós-graduação ou dos locais onde trabalham. Modificam um pouco o texto como se isso, somente, configurasse dois artigos diferentes. Porém, dois textos redigidos de maneira diferente, porém relatando os resultados do mesmo experimento científico, são considerados publicação redundante dos mesmos dados. Se são os mesmos pacientes, os mesmos métodos, a mesma análise, são o mesmo experimento. Se são pressionados a publicar dois em vez de um artigo, os autores devem realizar análises diferentes, usar outra coorte de pacientes ou realizar outro experimento. Tampouco traduzir o artigo para publicar em outra língua configura “dois artigos”.

 

Exceções aceitas pelas revistas:

 

– quando as revistas são previamente avisadas, e concordam em publicar em conjunto um mesmo artigo

 

– quando há interesse (às vezes, de saúde pública) de se publicar o artigo em outra língua ou para outra audiência, contanto que haja concordância dos dois editores: do que publicou primeiro e do que vai publicar depois, e com nota de rodapé indicando a publicação prévia

 

– quando um trabalho é publicado inicialmente em sua versão curta, por exemplo com acompanhamento curto dos pacientes, e depois o estudo é alongado, com a publicação da análise por mais tempo ou com mais pacientes, contanto que o trabalho inicial seja citado

 

– quando é submetido para publicação uma análise paralela ou menor de apenas um extrato dos dados do trabalho original, sendo que o outro trabalho, maior, é mencionado no texto.

 

Temos orientado nossos clientes para que prestem atenção ao problema das publicações redundantes, pois nem todos estão cientes das normas editoriais internacionais e do arrazoado ético a respeito.   

 

 

 

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Uma das maiores editoras de periódicos científicos do mundo, a Elsevier, decidiu lançar um concurso curioso: uma competição por ideias para melhorar o processo de revisão por pares. Os finalistas acabam de ser anunciados no website da editora (http://www.peerreviewfuture.com/) e, curiosamente, das oito ideias propostas, seis tinham a ver com propostas de reconhecimento público do trabalho voluntário dos referees. Postamos no website da Elsevier alguns comentários sobre elas.

 

Revisores (ou referees) são convocados pelos editores das revistas para avaliar artigos científicos submetidos para publicação. Eles têm de realizar uma cuidadosa revisão dos manuscritos, de acordo com as normas de cada revista, e redigir relatórios com críticas ponto a ponto. É um serviço que consome tempo e expertise, mas que é feito de graça. Por isso, frequentemente os editores têm problemas em conseguir que os relatórios sejam entregues no prazo. 

 

Reconhecimento é essencial em qualquer tipo de trabalho voluntário, e quanto se fala sobre um esforço especializado, como o peer-review, o reconhecimento deveria certamente tornar-se público de alguma maneira. Aparentemente, o que as editoras têm feito por seu exército de trabalhadores voluntários (meramente dispondo uma lista anual de nomes de revisores em suas revistas, na maioria) não tem sido suficiente, já que a maioria das propostas postadas para a Elsevier tinha a ver com sistemas de escores, pontuações e prêmios (como descontos em compras e serviços de estatística de graça) destinados aos melhores revisores.

 

Parte do trabalho dos referees é técnica, baseada em sua experiência e conhecimento adquiridos ao longo do tempo de dedicação à pesquisa. Outra parte é “braçal”: a leitura do artigo submetido, a conferência do cumprimento de normas ou preenchimento de formulários das revistas, a redação dos relatórios. Assim, parte do sistema de reconhecimento a ser proposto deveria ser baseado em quantidade: o número de artigos que um revisor é capaz de entregar adequadamente por ano, a rapidez com que faz isso tem de ser reconhecida. Porém a outra parte é qualitativa: como avaliar a capacidade que um revisor tem de perceber problemas metodológicos num artigo científico? Eis um desafio para os editores.

 

 

 

 

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Muitos artifícios podem ser usados para dar ênfase a determinadas palavras ou expressões nos textos: recursos gráficos, como itálico ou negrito, sublinhado, mudança de cor ou tamanho de letras. No entanto, temos observado que as pessoas têm usado com frequência a letra maiúscula no intuito de dar importância a certas palavras, esquecendo-se de que existem normas para o uso de maiúsculas e minúsculas em qualquer língua, inclusive a portuguesa, e que há maneiras mais adequadas (inclusive técnicas de redação) para enfatizar um conceito num texto.

 

Por exemplo: um sujeito, pesquisador de uma universidade qualquer, escreve um artigo sobre a importância da ética na pesquisa. Porque seu texto versa sobre ética (assunto de grande importância e problema central no texto), ele grafa ética com a letra maiúscula inicial em todas as ocorrências: “Ética”. Certo? Não. Ética, por si só, não é um nome próprio (a menos quando faz parte do nome de uma instituição oficialmente constituída, como por exemplo o “Comitê de Ética da Faculdade X”). Outro cliente nosso escreve sobre ligas de estudantes de medicina: as ligas em geral, sem que nenhuma específica seja determinada, vão grafadas em minúsculas. A Liga de Tuberculose de uma determinada faculdade, esta sim, vai com a letra inicial maiúscula, pois é um órgão específico e oficialmente constituído dentro de uma instituição. 

 

Relembrando a regra: nomes próprios vão em maiúsculas. O que é o nome próprio? É aquele que designa um único indivíduo de um conjunto, por exemplo, Pedro, Pará, Itália. Quando falamos de qualquer elemento (e não um específico, determinado), estamos nos referindo a um nome comum, por exemplo, menino, estado, país (qualquer menino, qualquer estado, qualquer país). Nomes comuns vão grafados com a letra inicial minúscula (a menos, claro, que estejam no início da frase ou linha). Nomes de instituições, escolas ou departamentos (Igreja Católica, Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente, Prefeitura do Rio de Janeiro, Receita Federal, Disciplina de Informática Médica) designam organismos específicos, que não se confundem entre si e aos quais nos referimos especificamente. Assim como nomes de locais: Aeroporto de Congonhas. Portanto, são nomes próprios e vão com iniciais maiúsculas em todas as palavras componentes. 

 

Usamos letra maiúscula em nomes de períodos ou eventos históricos registrados (como Renascimento ou Segunda Guerra Mundial) ou datas comemoradas oficialmente (Natal, Ramadã) e, em algumas situações, conceitos políticos ou filosóficos ou ramos do conhecimento sistematizado (Arquitetura, Medicina, Direito, Justiça, Parlamento). Pode-se ainda usar maiúsculas nos nomes de documentos conhecidos e leis ou resoluções (Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei de Diretrizes e Bases).

 

Mas não se usa maiúscula em nomes de cargos: o reitor, o professor, o diretor, a prefeita. Embora muitos tentem dar ênfase aos assuntos de seus textos e aos cargos que ocupam usando maiúsculas, há recursos mais apropriados para isso… 

 

Sobre caixa-alta e caixa-baixa: ainda nos tempos das tipografias, os técnicos guardavam as letras maiúsculas na parte superior das caixas de tipos, e as minúsculas na parte inferior. Por isso, os revisores convencionaram chamar de caixa-alta as letras maiúsculas e caixa-baixa as minúsculas, uma tradição que perdurou mesmo quando a tipografia caiu em desuso. Isso possibilitou a criação de um recurso muito prático em revisão de texto: a expressão, bastante usada por redatores e revisores, “caixa-alta-e-baixa”, que indica que as palavras de uma expressão deve iniciar com letra maiúscula e ter as outras letras em minúsculas, assim:

 

dicionário de português: caixa-baixa

DICIONÁRIO DE PORTUGUÊS: caixa alta

Dicionário de Português: caixa-alta-e-baixa.

 

 

 

 

Savioli, FP. Gramática em 44 lições. São Paulo: Editora Ática, 1988.

Cunha C, Cintra L. Nova gramática do português contemporâneo. Terceira edição revista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

O Estado de S. Paulo. Manual de Redação e Estilo. Disponível em: http://www.estadao.com.br/manualredacao/esclareca/maiusculaseminusculas.shtm.

Houaiss A, Villar MS, Franco, FMM. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

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Algum tempo atrás, para submeter um artigo para publicação nas revistas científicas, tudo o que o autor tinha que fazer era imprimir e mandar pelo correio ou, nas revistas mais “avançadas”, enviar por e-mail. Isso gerava um volume enorme de material que as revistas tinham que organizar para envio aos referees, editores de área, de volta aos autores, numa comunicação muito lenta e difícil, e que muitas vezes levava a perdas de documentos.

 

Nos últimos anos, todas as revistas científicas (com raríssimas exceções) passaram a aderir a sistemas eletrônicos de submissão, transferindo aos autores a responsabilidade por classificar e organizar previamente os artigos antes do envio para os referees. Isso melhorou muito a agilidade das revisões (que hoje tomam em torno de três meses) e o arquivamento de versões diferentes dos documentos. Porém, submeter um artigo para publicação em revista científica não é sempre um trabalho simples, e por isso, é um serviço que a Palavra Impressa presta a seus clientes rotineiramente.

 

Os sistemas eletrônicos das revistas exigem cadastro prévio de todos os autores do artigo, especialmente o autor correspondente. Só aqui leva-se em torno de 30 a 90 minutos, dependendo do grau de exigência da revista quanto aos detalhes pessoais, resposta a perguntas sobre conflitos de interesse, preenchimento de formulários etc. Esta parte do serviço exige que o operador conheça os autores do artigo que está submetendo, para não classificar, por exemplo, um estudante de graduação como doutor, por exemplo (ou vice-versa). Coisa que nem sempre um recepcionista de consultório tem condições de fazer.

 

Na medida em que se preenchem os formulários, senhas são geradas e mensagens são enviadas por e-mail para o operador para que confirme naquele momento a submissão e possa avançar para os passos seguintes. Isso exige atenção e dedicação total ao serviço, o que nem sempre é possível para nossos clientes, ocupados com suas atividades assistenciais e de pesquisa.

 

Depois de cadastrar os autores e até escolher possíveis referees para revisar o artigo, as revistas solicitam que se enviem todos os documentos do artigo (texto, imagens, tabelas) separadamente, e nos formatos eletrônicos específicos. Cada revista tem uma exigência diferente. Isso faz com que o operador conheça as peculiaridades dos diversos sistemas eletrônicos de submissão, que saiba como salvar documentos num ou noutro formato, que tenha capacidade para converter arquivos de um programa para outro e que, novamente, conheça o artigo que está submetendo para que possa encaixar as informações corretas nas caixas corretas. Tudo isso em inglês (exceto por algumas raras revistas brasileiras).

 

Por fim, as revistas estão, cada vez mais, facilitando o próprio trabalho de indexação dos artigos e de classificação dos manuscritos por especialidade para envio aos melhores referees automaticamente. Isso exige que o operador que está fazendo a submissão conheça o assunto do qual o artigo está tratando para que possa escolher as melhores palavras-chave que caracterizam o trabalho. Numa revista de grande circulação e impacto, isso pode representar mais de uma hora de trabalho, escolhendo de três a dez palavras-chave no mínimo numa lista predeterminada pela revista. Novamente, em inglês.

 

Assim, o serviço que prestamos aos nossos clientes de submissão dos seus artigos, que geralmente está acoplado ao serviço de edição do texto em si, é apreciado por poupar-lhes um tempo precioso. Além disso, nós controlamos internamente as comunicações que a revista faz com o autor após a submissão, recebendo cópias de todas as mensagens enviadas ao autor correspondente. Isso nos permite relembrar os clientes de que têm tarefas pendentes como o envio de mais documentos ou esclarecimentos ao editor. Assim, mantemos sob controle, centralizado, as diversas submissões que um mesmo autor tem para várias revistas, podendo inclusive cobrar respostas dos editores quando há demora. Nossos clientes podem ser avisados, de uma só vez, sobre o status de todos os seus artigos submetidos.

 

Se um artigo é recusado pela revista, ao recebermos o comunicado do editor, já fazemos uma avaliação inicial dos motivos da recusa e podemos orientar os autores sobre a melhor maneira de contra-argumentar sobre as críticas ou corrigir/alterar o texto para nova submissão. Mas este é assunto de outro tópico…

 

 

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