Pílulas de Português!
Pequenas dicas de como usar a nossa língua -- e como não usar!

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Temos procurado, sempre que possível, evitar a voz passiva nos textos da Cochrane, principalmente nos resumos para leigos. Isso porque é muito mais fácil e rápido compreender “selecionamos os estudos que tivessem amostra adequada” do que “foram selecionados os estudos….”. Mas… às vezes é inevitável usar a voz passiva, principalmente quando o sujeito da frase não é definido. Só que o uso do plural nessa situação tem gerado um erro recorrente.

Se eu tenho mais de uma casa para alugar, a placa deve dizer
*“Alugam-se *casas”.
Se vários remédios são fornecidos para a população,
*“Tomam-se* vários medicamentos”.

Vejam alguns outros exemplos de uso correto da voz passiva:

– Recrutam-se mulheres para estudo clínico sobre cólicas.
– O estudo alertou sobre os risco de se tomarem os suplementos sem necessidade.
– Reuniram-se os resultados de todos os estudos numa metanálise.
– Alugam-se casas, vendem-se salas, dividem-se quartos.

Para verem como o erro é frequente… vejam as placas abaixo. Quais delas estão certas e erradas?

1

2

3

4

5

6

7

8

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Um dos temas mais complicados, discutidos, contestados e criticados da Nova Norma (agora já está velha!!) Ortográfica é justamente o emprego do hífen.

Em vez de atormentá-los com os mesmos e numerosos dilemas que provocam insônia aos linguistas, prefiro só relembrar, marcar, enfatizar: antes de 2009, usávamos o hífen depois de “não” quando queríamos compor uma nova palavra com sentido negativo. Escrevíamos “não-verbal”, “não-governamental“, e mesmo antes de substantivos, como “não-fumante” etc., certo?

Pois a Nova Norma Ortográfica, que está plenamente em vigor desde janeiro de 2016, ordena que, agora, não usamos mais hífen depois do não.

Portanto, queridos, vamos escrever:

não fatal

não significante

não cirúrgico

não supurativo

não hormonal

… e assim por diante. Sem hífen depois do não. OK?

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“Criteria” já está no plural!
Quando o original fala de um critério somente, usa a palavra “criterion”.

Criterion = critério.
Criteria = critérios.

Bacteria = bactérias, no plural
Bacterium = uma bactéria

Hypothesis = uma hipótese
Hypotheses = hipóteses

Analysis = uma análise
Analyses = análises

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Qual(is) é(são) a(s) alternativa(s) *correta(s)*?

1

  • a) Os estudos foram realizados a mais de 20 anos atrás.
  • b) Os estudos foram realizados mais de 20 anos atrás.
  • c) Os estudos foram realizados há mais de 20 anos.
  • d) Os estudos foram realizados há mais de 20 anos atrás.

2

  • a) Há uma semana, a revisão foi atualizada.
  • b) A uma semana, a revisão foi atualizada.
  • c) Uma semana atrás, a revisão foi atualizada.
  • d) Há uma semana atrás, a revisão foi atualizada.

3

  • a) A uma semana da avaliação por exame de sangue, três pacientes abandonaram o estudo.
  • b) Há uma semana da avaliação por exame de sangue, três pacientes abandonaram o estudo.
  • c) Há uma semana da avaliação por exame de sangue, três pacientes serão submetidos ao raio X.
  • d) A uma semana da avaliação por exame de sangue, três pacientes serão submetidos ao raio X.

4

  • a) Fazem dois anos que este paciente não aparece no ambulatório.
  • b) Há dois anos este paciente não aparece no ambulatório.
  • c) A dois anos este paciente não aparece no ambulatório.
  • d) Faz dois anos que este paciente não aparece no ambulatório.

 

Gabarito

1: b e c

2: a e c

3: a e d

4: b e d

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Mais uma pílula “_on demand_”: o correto é escrever Zika, com o z maiúsculo? Ou minúsculo?

Lembrando a teoria: só nomes próprios devem levar letra maiúscula inicial. Nomes de doenças não deveriam ser grafados em maiúscula em português: hepatite, dengue, malária.

Mas Zika é um nome próprio? De onde vem o nome Zika?

A Organização Mundial de Saúde, em seus documentos oficiais na língua portuguesa, grafa *Zika*, com letra maiúscula.
http://www.who.int/mediacentre/factsheets/zika/pt/

O mesmo faz o nosso *Ministério da Saúde*: *Zika*. Será que está correto?

A OMS e o MS fazem isso provavelmente pensando na floresta Zika, perto da capital da Uganda, onde o flavivírus que causa a doença foi isolado pela primeira vez no final da década de 1940, o *ZIKV*. [Artigo original, publicado em 1952: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/12995440.] “Zika”, na língua local, quer dizer “_overgrown_”, ou “cheio”, “lotado” — trata-se, de fato, de uma área que tem rica biodiversidade, protegida, destinada a pesquisas em biologia.

Então, teoricamente, da mesma maneira que grafamos “doença de Chagas” (com C maiúsculo) ou “febre do Nilo”, deveríamos grafar “vírus da Zika” (significando “vírus da floresta que se chama Zika”). Com maiúsculas.

Só que é possível que, com o passar do tempo e com o uso corrente pela população, haja um “aportuguesamento” da palavra Zika (assim como “Sandwich” virou sanduíche” e “Braille” virou “braile”) e que “Zika” se torne “*zica*”, “*vírus da zica*”, “*doença zica*” (assim como aconteceu com a sigla AIDS, que virou a palavra aids em português). Em tempo: o aportuguesamento prevê o uso da letra c, no lugar da k.

Um bom sinal disso é que a Wikipedia já admite o uso com letras minúsculas, embora ainda com k. Além disso, a imprensa em geral também tende a escolher o nome com minúsculas: o jornal Zero Hora, a BBC, a Globo falam em zika. Outros representantes da imprensa leiga já vão além, como O Estado de Minas, O Povo, o Correio Braziliense, e grafam “*zica*”.

A Academia Brasileira de Letras ainda não “acordou” para o Zika, e ainda não lista essa palavra no VOLP, embora dicionários portugueses já registrem a zica, assim em minúsculas e com c.

O Centro Cochrane do Brasil optou por grafar zika, com k.

A língua é viva. O uso que fazemos dela ajuda na sua consolidação, e uma hora qualquer a nossa Academia vai (ter que) registrar “a zica”. Enquanto isso, em nossos documentos de disseminação para o público leigo, podemos colaborar, tornando as coisas menos complicadas, usando as minúsculas e o c.

Concordam? 😉

[Explicação bem fácil de entender vem dos portugueses: http://www.porticodalinguaportuguesa.pt/images/parecer/zica.pdf]

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Segmento, com g mudo: parte, porção. Segmento do intestino, por exemplo. Segmento anterior da coluna. Segmento ST do eletrocardiograma. Segmento posterior do olho. Segmento pulmonar. Existe até um palavrão novo no pedaço: segmentectomia, argh!

Seguimento: acompanhamento. Eu prefiro, em português, dizer acompanhamento em vez de seguimento, porque fico aqui imaginando: a gente segue o paciente (como quem segue alguém de longe, na rua, sem interagir) ou o médico, o nutricionista, o dentista, o fisioterapeuta, o enfermeiro acompanham o paciente, junto dele?

OK, desconfio de onde isso veio: de follow-up. Follow = seguir. Tradução fácil: follow-up, seguimento.

Mas eu ainda acho mais bonito quando o profissional de saúde diz que acompanhou o paciente até…. a cura, o fim da vida, whatever.

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Infarto? Enfarto? Enfartar? Infartar? Qual o correto?

A Academia Brasileira de Letras (ABL) é bem aberta: aceita quatro grafias para o substantivo:
infarto
infarte
enfarto
enfarte.

… e ainda os dois verbos são aceitos:
enfartar
infartar.

Houaiss e Aurélio reconhecem infarto e enfarte como sinônimos um do outro.

Houaiss reconhece enfartar/enfarte, mas coloca as definições (de necrose etc.) nos verbetes infartar/infarto.

O bom e velho Aurélio diz que “enfartar” é “sofrer ou ter um infarto”!! E também aceita enfarto, mas não “infarte”.

(Lembrando que a edição do Aurélio é mais antiga que a do Dicionário da ABL).

O Stedman prefere infarto (não lista enfarte).

A palavra com e, enfarte, além do significado da necrose do tecido, também tem o sentido de empanturrar, encher, inchar. Sua origem é essa. Portanto, para falar de infarto do miocárdio ou cerebral (precisamente o oposto de preencher ou encher!), é melhor usar infarto, no sentido de lesão necrótica por hemorragia ou isquemia.

Os dicionários em geral, portanto, aceitam que se escreva de várias maneiras, mas o fato de colocarem os significados sempre junto ao verbete “infarto” nos sugere que esta é a grafia preferida ou mais utilizada no Brasil. O Google nos confirma isso: 41.500.000 documentos com “infarto” e apenas 403.000 com “enfarte”.

Os dicionários portugueses, por sua vez, preferem o enfarte, com e.

Moral da história: não é crime escrever infarte, enfarto… mas infarto e enfarte são mais usados e aceitos e, nos documentos científicos da área de saúde, quando se referindo a necrose do tecido (e não a empanturramento), convém preferir infarto nas nossas terras brasileiras.

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“Anti” liga-se à palavra seguinte com hífen somente quando vem antes de palavra que começa com:
– a letra i
– a letra h

Exemplos:
anti-inflamatório
anti-infeccioso
anti-hélice
anti-helmíntico
anti-hemorrágico
anti-herpético

Todos os outros “antis” vão grudados na palavra seguinte, sem hífen:
antimalárico, antimedicinal, antioxidante, antiparasitário, antibiótico, antibioticoterapia etc.

Para lembrar:
Anti-h
Anti-i
Antioutras coisas

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O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), elaborado pela Academia Brasileira de Letras, contém 390 mil palavras ou mais.

A língua vai “crescendo” com o tempo, conforme palavras vão sendo adicionadas pelo uso (principalmente pela tradição oral). “…raramente haverá trabalho literário que mais susceptível seja de correções e aditamentos do que o dicionário de uma língua”, escreveu Cândido de Figueiredo.

Os dicionários vão crescendo mesmo. Mas isso não quer dizer que a gente possa escrever qualquer coisa… Existem algumas palavras que as pessoas querem usar e escrevem em seus textos acadêmicos… mas elas ainda não existem no vernáculo. Até que sejam adotadas pela Academia, melhor evitá-las nos trabalhos científicos.

Por exemplo:
• Semelhantemente (que as pessoas querem adaptar direto do inglês “similarly”)
• Interessantemente (idem, do inglês “interestingly”)
• Desparasitação (adoramos criar uma palavra juntando “des” com qualquer outra coisa… mas é mais seguro verificar no VOLP se a palavra existe!)

Enfim… Cuidado com o excesso de criatividade! 😉

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Ou seria ao contrário?

OK, aqui vão as regras básicas, “rapidinhas”.

Em português, pontos em numerais milhares: 1.565 pacientes, 2.322 cidades etc.

Porém, não é preciso colocar pontos nos numerais dos anos, ok?
Eu nasci em 1973, e em 2016 completamos 350 traduções de abstracts Cochrane para o português.

Nos decimais, em português, usem vírgulas: p < 0,05; risco relativo de 20,2; 3,5 mais chances de… (isto vale para tabelas e texto). Em inglês, é o oposto: vírgulas nos milhares (sim! é feio mas é assim!) e pontos nos decimais (como nas máquinas de calcular): 1,565 patients, 2,322 cities. In the year 2016, 350 abstracts and PLSs were translated by the Brazilian Cochrane Center. The search was made from 2000 to 14 April 2015. And p < 0.05; additional 0.2 kg gain.

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