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Patricia Logullo

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Patricia Logullo é editora de textos e publicações. Trabalha na área de não ficção, especialmente com relatórios científicos, sobre projetos sociais e registros históricos.

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Nossos clientes continuam sendo procurados, com frequência, com convites que receberam de revistas para a publicação de artigos. Uma rápida olhada no website dessas revistas mostra que elas não têm indexação (portanto o artigo publicado nela não é rastreável) nem boa visibilidade (justamente por isso), suas publicações são irregulares e escassas e elas estão apenas tentando ganhar dinheiro em cima dos autores cobrando taxas de publicação (de mais de 2 mil dólares por artigo). As revistas que fazem esses convites, na maioria, são justamente as de menor qualidade. E publicar nelas pode ser uma decisão equivocada.

As (boas) revistas open access nasceram de um princípio muito interessante: o direito de se ter acesso, gratuitamente, aos resultados da pesquisa publicada no mundo todo. E realmente muitas boas, importantes e qualificadas revistas open access foram criadas nesse contexto, como a PLOS, por exemplo, considerada uma das melhores do mundo. Existem milhares de bons exemplos de revistas open access, que são de qualidade e têm boa reputação. Estas boas revistas têm sistemas de avaliação por pares bem definidos e organizados e não publicam qualquer coisa. Por isso, seus artigos são bem citados e elas conseguem bons fatores de impacto. Boa parte delas está listada no Diretório de Revistas Open Access https://doaj.org/.

No entanto, como essa modalidade de publicação é financiada pelo autor do artigo, o “open access” transformou-se num filão comercial altamente lucrativo. E começaram a surgir revistas publicadas por instituições que não são exatamente comprometidas com a ética e com a qualidade na publicação científica. Essas editoras não têm pudor algum em publicar artigos que passaram (se é que passaram) por processos de revisão por pares de qualidade muito duvidosa e com falta de padronização e transparência. Elas ganham no volume e enganam muitos pesquisadores, tanto os jovens como os mais experientes, prometendo publicação rápida. Quando publicam. São as chamadas revistas open access predatórias, por realizarem uma “concorrência desleal” com as revistas sérias e de qualidade.

Ao publicar seu artigo numa revista predatória, o autor pode desperdiçar um bom trabalho numa revista que não dá a menor garantia de que vai continuar no ar daqui a alguns meses. As revistas open access chamadas de predatórias têm meia-vida curta, enquanto as de qualidade permanecem, e têm muitos volumes publicados. É recomendado verificar o website de uma revista open access antes de pensar em enviar um artigo para publicação: seu profissionalismo e sistema de revisão por pares ficam transparentes na página oficial. O nome e o currículo do editor-chefe denuncia se a revista tem condições de sustentabilidade. E o endereço oficial deve ser claro e transparente — e não uma cabana no meio da floresta.

Estas são nossas recomendações para evitar jogar um bom artigo científico numa revista predatória:

1) Não aceite convites: se recebeu um convite por e-mail, desconfie. Muito raramente um editor de uma revista internacional de qualidade precisa enviar convites para receber artigos, porque as revistas de qualidade já estão abarrotadas de submissões e conseguem publicar somente uma pequena parte do que recebem. Convites, quando acontecem, são pessoais, e não chegam por meio de mensagens de e-mail coletivas (e sim do editor diretamente ao autor). Se recebeu um convite com apenas parte de seu nome, desconfie, pois você pode ter sido “pescado” por um robô enviando milhares de mensagens iguais, e não por um ser humano. Nunca aceite convites sem examinar a revista primeiro.

2) Indexação: verifique, em primeiro lugar, se a revista está indexada (em bases como o PubMed, Embase, LILACS, ISI). Não desperdice esforços publicando em revistas não indexadas. Se necessário, peça ajuda a um bibliotecário, numa biblioteca pública. Não custa nada.

3) Coleção da revista: verifique quantos volumes e fascículos a revista já publicou, e se publicou um número considerável de artigos em cada um. Revistas novas não são indexadas, porque é necessário atingir um certo número de publicações, com regularidade e adequado processo de revisão por pares para se conseguir uma boa indexação. Uma revista com três ou quatro artigos publicados em toda a sua história não atingiu, certamente, um nível de qualidade mínimo e nem regularidade na publicação. Provavelmente não é indexada e não vai conseguir indexação no futuro.

4) Editores: quem são o editor-chefe e os membros do Conselho Editorial? São autoridades na área? Têm eles boas publicações? A reputação da revista está em grande parte baseada no trabalho dos editores. Cuidado também com revistas que usam nomes “parecidos” com os de grandes editoras, como “Spring” (parecida com a editora Springer).

5) Apoio: a revista tem respaldo ou apoio de uma sociedade científica reconhecida? A falta de apoio pode revelar, por um lado, independência, mas por outro pode denunciar falta de reputação. O apoio de uma sociedade ou associação é um ponto positivo.

6) Qualidade do website: páginas com “ar caseiro”, simples, mal organizadas ou com jeito de que foram produzidas sem apoio profissional denunciam revistas que não têm infraestrutura suficiente para serem sustentáveis.

7) DOAJ, o Diretório de Revistas Open Access: consulte! Esse diretório traz uma lista de “boas” revistas open access: https://doaj.org/. A presença na lista produzida pela DOAJ, uma organização social sem fins lucrativos, é um bom sinal de qualidade da publicação. O DOAJ, quando suspeita de falhas de conduta das revistas, teoricamente remove essas publicações de sua lista.

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Direto do aeroporto, a caminho de São Paulo (na volta da Equator Publication School), escrevi mais uma Pílula de Português.

Tiroide ou tireoide?

Joffre Marcondes de Rezende nos ensina que a palavra pode ser oriunda de dois vocábulos gregos: “thyreoeides”, “no formato de escudo”, ou de “thyreós”, que quer dizer “no formato de uma porta”. Se pensarmos que um escudo pode ter (e, de fato, muitas vezes tinha) formato de porta, a etimologia não nos ajuda muito…! ?

O Caldas Aulete, dicionário português, deriva a tiroide da porta, não do escudo (daí a grafia “tiroide”). Só a partir do século XIX é que passou a aparecer a forma “tireoide” com mais frequência nos livros portugueses, atribuindo a origem ao escudo, não à porta… Isso ficou comum nos livros franceses, e por isso os médicos brasileiros começaram a adotar a forma “tireoide”. Mas, em 1930, a Academia Brasileira de Letras (ABL) aprovou a forma tiroide, sem o e, mesmo sob crítica de médicos ilustres da época. Hoje, a ABL aprova ambas formas. A Nomina Anatomica iniciou escrevendo tireoide. Depois, na década de 1960, mudou para tiroide. Mais recentemente, temos os Decs, da Bireme, nos influenciando a escrever tireoide. Aparentemente, a tendência internacional é aceitar a raiz “da porta” e não “do escudo”, e escrever tiroide. Vai ver que é porque, aqui no Brasil, tendemos a usar mais portas que escudos. Que assim seja!

Resumo da ópera: são aceitas ambas as formas, mas para maior “homogeneidade” com a literatura internacional e para privilegiar o simples e o curto, recomendo o uso de “tiroide” preferencialmente. Usem os dois, mas prefiram tiroide: mais simples, mais curto, mais internacional, mais porta que escudo.

[Rezende, JM. À sombra do plátano. Crônicas de história da medicina. São Paulo: Editora Unifesp, 2009.]

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O EQUATOR Network, rede que produz diretrizes para publicação de artigos científicos, acaba de receber o Prêmio do Conselho de Editores Científicos 2017. O prêmio é concedido a pessoas ou instituições que se dediquem à melhora da comunicação em ciência por meio da busca de altos padrões de atividades ligadas à edição. O prêmio foi concedido para “honrar as contribuições e esforços do EQUATOR Network em promover a conduta ética, a redação e a publicação de trabalhos científicos”. A diretora do EQUATOR, Iveta Simera, recebeu o prêmio e avaliou: “este prêmio é um reconhecimento fantástico, não somente para toda a equipe do EQUATOR mas também para todos os que apoiam nossos esforços”.

A Palavra Impressa procura adotar as diretrizes do EQUATOR na edição dos artigos científicos na área de saúde, e procura apoiar os esforços para sua divulgação.

Mais informações em: https://www.ndorms.ox.ac.uk/news/equator-network-honoured-by-the-council-of-science-editors

 

 

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O Equator Network está novamente este ano realizando a Equator Publication School, um curso de imersão sobre as diretrizes para redação de artigos científicos. O curso ocorre em 19 a 23 de junho, em Oxford, no NDORMS (Nuffield Department of Orthopaedics, Rheumatology and Musculoskeletal Diseases), na Inglaterra.

EQUATOR Publication School 2017: 19-23 June, Oxford, UK

Temos insistido com nossos clientes e outros editores de publicações na área de saúde a respeito da importância de se usarem diretrizes para redação de artigos científicos. O Equator Network produziu várias dessas diretrizes, cada uma para um tipo de estudo: há STROBE, para estudos observacionais (transversais, caso controle, coorte), CONSORT para estudos clínicos e assim por diante. São normas cujo cumprimento é exigido pela maior parte das boas revistas em saúde.

Essas diretrizes são fáceis de usar, auxiliam muito o pesquisador na hora de escrever seu artigo e principalmente são importantíssimas para evitar o viés de relato, ou seja, a falha de descrição de métodos que podem ter sido utilizados adequadamente, mas que ficaram de fora por lapso. Isso depois prejudica a realização de revisões sistemáticas.

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Estávamos numa sala de aula cheia de pesquisadores, discutindo quatro títulos de seus trabalhos, editando na hora, inserindo em tela as sugestões de todos. Esse tipo de experiência de trazer a prática para a didática permite que coisas interessantes aconteçam — tanto para professor quanto para o aluno.

A proposta era que cada pesquisador trouxesse o seu projeto de pesquisa com um título provisório, que digitamos num slide projetado. Depois de explicar alguns princípios básicos sobre as exigências das revistas científicas quanto aos títulos (teoria: menos de cinco minutos), passamos a aprimorar o que estava ali digitado, usando as diretrizes que foram discutidas antes e também as sugestões e críticas dos demais.

Na plateia, doutores, mestres, bacharéis e alguns alunos de graduação fazendo trabalhos de iniciação científica. Desconstruímos alguns preconceitos e vícios dos mais experientes, aprendemos alguns termos novos das áreas de estudo, e resolvemos alguns desafios sobre como falar mais em menos palavras.

Até que… deparamos com um problema difícil de resolver. Ninguém na sala sabia como expressar a existência de três grupos de estudo num dos títulos, sem alongá-lo demais. Propusemos então algo que, vez por outra, se mostra útil na edição de textos — embora muitos clientes se mostrem céticos: a espera com distanciamento.

Ficar longe de um texto (ou de um título) por algum tempo cria um distanciamento que nos permite ser críticos. Possibilita, também, maior contato com outros textos, outras inspirações, que despertam naturalmente novas soluções para um problema que parecia insolúvel. Falaremos sobre isto em outro post.

Propusemos, naquela aula, cuidar de outros aspectos daquele título por alguns momentos — o desenho do estudo, o nome da técnica utilizada, outros detalhes — e fomos resolvendo essas coisas, lapidando o texto por alguns minutos, quando, do fundo da sala, veio a solução: bastava simplesmente substituir uma palavra “e” por “ou”, sugeriu um colega. A mágica veio de um aluno de iniciação científica, talvez o menos experiente do grupo — e com certeza o que estava mais distanciado do problema!

Assim finalizamos a dinâmica do dia: alguns satisfeitos porque conseguiram editar, eles mesmos, os títulos de seus trabalhos de pesquisa; a direção porque sentiu que a equipe saiu um pouco mais habilitada a escrever bem, mesmo os que estavam trabalhando com títulos dos trabalhos dos outros; nós porque sempre podemos orientar melhor e prestar melhores serviços de edição quando entendemos bem as dificuldades dos clientes.

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Na semana passada, várias pessoas nos enviaram os parabéns pelos 21 anos da Palavra Impressa. (Dicas do LinkedIn!…). Pensamos: “ora, por que é que ano passado não falaram nada?” Claro, 20 anos não significam nada, mas o 21º aniversário parece que celebra uma certa “adultez”.

Isso fez pensar no que é que caracteriza este projeto — a esta altura, uma realização. E talvez uma pequena descrição de um dia na Palavra Impressa, ou de uma semana, ou de algumas horas, possa mostrar o que podemos fazer por você.

Ontem, fizemos uma visita a um hospital, onde discutimos com um cirurgião de joelho, linha por linha, um artigo científico que ele havia escrito — e onde seu mais importante achado ainda estava escondido. Antes disso, já havíamos despachado para impressão quatro artigos de uma das revistas de medicina que editamos, e que careciam de solução para pequenos detalhes. No caminho para o hospital, contatamos o nosso estatístico para dar a ele orientações sobre um gráfico que precisava ser adicionado a uma prova de outro artigo de cliente nosso, já no prelo. 

Na volta do hospital, conversamos pelo telefone com um fisioterapeuta que precisava de ajuda para formatar sua aula de mestrado. Ao chegarmos, editamos a imagem do gráfico do outro cliente, juntamos com uma carta ao editor e a prova corrigida e enviamos para a revista usando sistemas eletrônicos. Depois, finalizamos a revisão da tese de uma psicóloga, adicionando uns dados que a autora acabara de enviar em separado, e saímos novamente, agora para outro hospital. 

O primeiro hospital, que visitamos pela manhã, era bem diferente: filantrópico, de serviço público, cheio de desafios de infra-estrutura e de pacientes em macas nos corredores. O segundo está cotado como um dos melhores e mais luxuosos do Brasil. O cliente ali tinha um projeto de pesquisa para agência de fomento… que não iria conseguir convencer o agente avaliador a lhe dar financiamento. Editamos juntos o texto para que ficasse mais claro, conciso e consistente, além de convincente. A reunião aconteceu no departamento de pesquisa clínica da instituição, onde a convivência com outros pesquisadores e gestores de pesquisa é sempre enriquecedora. De volta ao escritório, terminamos a tradução de um artigo que já estava quase pronto, e enviamos para publicação numa revista britânica.

Um dia tão mergulhado em estudos da área de saúde pode fazer pensar que só trabalhamos com isso. Mas os diários aqui na Palavra Impressa podem ser variados — e apetitosos por isso. Nós também ajudamos advogados, contadores, engenheiros, administradores de empresas e de pessoas, designers e jornalistas com seus estudos (projetos, dissertações, teses, trabalhos de conclusão de curso, relatórios de pesquisa). Manuscritos acadêmicos de várias áreas — porque nós adoramos aprender.
Fora da academia, também temos ajudado as pessoas e organizações com seus textos. Formatamos e ajudamos nossos clientes a apresentarem suas aulas. Escrevemos currículos e cartas de apresentação para velhos clientes que estão tentando novos projetos de vida mundo afora. Fazemos reportagens. Participamos da edição de livros sobre vários temas, incluindo vários registros históricos e de projetos sociais desenvolvidos por fundações respeitadas no Brasil e no mundo (sim, já trabalhamos para a Organização Mundial de Saúde). Temos colaboração voluntária com a Cochrane, realizando a revisão de textos que são traduzidos por outros voluntários no Brasil todo. E essas histórias nós contamos não só em forma de artigos científicos, mas também de exposições que montamos em eventos, participações em congressos internacionais, entrevistas, textos para sites visitados por leigos, incluindo revisão e edição de entradas da Wikipedia.

Para leigos? Sim, claro. Todos têm direito à informação. Nós, da Palavra Impressa trabalhamos todos os dias para que os especialistas possam levar a público o resultado de seus trabalhos: sobre saúde, sobre cidadania, sobre direitos. Só assim o avanço das ciências vai poder beneficiar o maior número de pessoas.

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Devemos escrever as abreviaturas dos símbolos de quilo, metro, litro em maiúsculas ou minúsculas?

Minúsculas. 

Duas razões para isso:

1) não existe motivo para maiúsculas, embora algumas editoras insistam em grafar Kg, mL etc. e padronizem seus documentos assim;

2) No Sistema Internacional (SI), essas unidades estão abreviadas em minúsculas (pelo menos até 2018, quando o Sistema será revisado). Vejam em: http://www.bipm.org/en/measurement-units/

(Em tempo: o Bureau International des Poids et Mesures é a organização internacional pela qual os estados membros atuam de forma coordenada para melhorar a ciência e padrão de medidas. O Sistema Internacional de Unidades, ou SI, determina os padrões e bases de seis medidas: o metro, o quilograma, o segundo, o ampere, o kelvin, o mol e a candela. O website deles é bastante interessante e bem organizado e mostra o histórico do estabelecimento e manutenção de cada medida. O quilo, por exemplo, é um protótipo real, um cilindro de platina arquivado pelo Bureau.)

Então:

O paciente pesava 50 kg, a distância percorrida foi de 250 m, havia 2 l de plasma na bolsa.

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Algumas       pessoas adoram    digitar usando um  , dois ou       mais espaços no meio do texto,     às vezesnenhum  , colocando espaços dentro de parênteses (  como se o conteúdo do    pobre   parêntese tivesse uma doença contagiosa   ), ou preferindo usar espaços antes  ,em vez de depois das vírgulas   ! Vejamcomo a   leitura fica prejudicada pelo   uso inadequado   dos espaços  .Até parece que   o   redator sofre de mal de Parkinson   .Isso fica ainda pior nos textos   com dados numéricos  , em que um espaço   ,ponto ou vírgula fazem a     ma ior     diferença :  3 500mg  é o mesmo que trêsmilequinhentos miligramas ou três  vezes  500 mg   ? Que tal escrever 3.500 mg?

Agora vejam como o texto fica mais fácil de ler quando os espaços estão em seus lugares. Um espaço depois do ponto final, nenhum antes. Também nenhum antes da vírgula, ou do ponto e vírgula; mas usem sim um espaço depois dessas pontuações. Um espaço antes da abertura e outro depois do fechamento dos parênteses (mas nenhum espaço na parte de dentro, após a abertura e antes do fechamento). Nunca, nunca usar espaços duplos! Nem triplos! Nunca usar espaço antes do sinal de porcentagem (por exemplo, 50%). Mas usar um espaço entre o número e a o símbolo da unidade de medida de volume ou massa: 3.500 mg, 40 ml. Nunca usar espaços antes e depois de hífens (deve-se fazer assim para separar dois pedaços de palavras), mas usar um espaço antes e outro depois do travessão — o traço mais longo, que serve para isolar trechos de uma frase.

(Vejam como o aspecto da mancha de texto no parágrafo de cima está diferente do aspecto do parágrafo de baixo!)

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As revistas científicas internacionais da área biomédica, principalmente as que aderem ao COPE (Committee on Publication Ethics), estão cada vez mais solicitando dos autores que obtenham de pacientes a autorização deles para publicação de seus relatos de caso. Ou seja, agora não basta mais “ter o caso”, “ter cuidado do paciente” para escrever e publicar o relato: é preciso que se peça ao paciente seu consentimento para a descrição de sua história clínica, mesmo que o artigo seja feito de forma que sua identidade seja oculta. Isso porque, mesmo quando o nome do paciente é escondido, detalhes de sua condição clínica podem fazer com que ele seja reconhecido publicamente. Esse é o entendimento do COPE.

O consentimento para publicação do relato de caso não é o mesmo que o consentimento que o paciente assina para se submeter a procedimentos médicos (uma cirurgia, por exemplo). São documentos diferentes, com teor diferente. O fato de o paciente ter consentido para a realização de um procedimento não significa que consinta para a publicação.

Em caso de pacientes falecidos, o nome do doente e do familiar que assina a declaração de consentimento para publicação do caso têm de estar claros no documento. O documento deve trazer também o nome do profissional que explicou ao paciente ou familiar sobre o relato de caso (geralmente é o responsável pelo relato de caso, mas nem sempre).

O documento deve declarar que o paciente ou familiar viu a versão do relato de caso a ser publicada e, mesmo assim, concordou com isso. O documento também deve deixar claro que a confidencialidade não pode ser inteiramente garantida, mesmo quando a identidade do paciente é mantida sob sigilo — assinar o documento não anula o direito à privacidade. O paciente tem direito a ser informado onde e sob que condições o relato será publicado (sob que tipo de licença), e de saber que nenhuma vantagem financeira será obtida com a publicação. Deve ficar claro que, após a publicação, o consentimento para publicação não poderá ser retirado ou cancelado.

O COPE faz essas e outras recomendações e ainda fornece os links de alguns formulários, utilizados por revistas de qualidade, que podem ser traduzidos e utilizados por autores de relatos de caso no Brasil.

Veja aqui a discussão sobre o assunto e os modelos.

 

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Nossos clientes têm nos procurado, com frequência cada vez maior, portando convites de revistas para publicação de artigos. Recebem e-mails com “convites para submeter um artigo para uma revista importante”… Ao relermos juntos essas mensagens, fica patente que se trata de uma prática predatória, na verdade quase um golpe. Geralmente, não são as “revistas importantes” que fazem esses convites, mas justamente as revistas de menor qualidade, que dependem de volume de publicações para sobreviver financeiramente. E publicar nelas pode ser uma decisão equivocada. E cara: com taxas de mais de 2 mil dólares por artigo.

O movimento “open access” nasceu de um princípio muito interessante: o direito de se ter acesso, gratuitamente, aos resultados da pesquisa publicada no mundo todo. O princípio por trás do movimento é bonito e realmente muitas boas, importantes e qualificadas revistas foram criadas nesse contexto, como a PLOS, por exemplo. Existem mais de 9 mil bons exemplos de revistas open access qualificadas listadas no Diretório de Revistas Open Access https://doaj.org/. Estas boas revistas têm sistemas de avaliação por pares bem definidos e organizados e não publicam qualquer coisa. Por isso, seus artigos são bem citados e elas conseguem bons fatores de impacto.

No entanto, como essa modalidade de publicação é financiada pelo autor do artigo, o “open access” transformou-se num filão comercial altamente lucrativo. E aí começaram a surgir revistas publicadas por instituições que não são exatamente “sem fins lucrativos” ou comprometidas com a ética e com a qualidade na publicação científica. Essas editoras têm finalidade lucrativa e não têm pudor algum em publicar artigos que passaram (se é que passaram) por processos de revisão por pares de qualidade muito duvidosa e com falta de padronização e transparência. Elas ganham no volume e enganam muitos pesquisadores, tanto os jovens como os mais experientes, prometendo publicação rápida. Quando publicam. São as chamadas revistas open access predatórias, por realizarem uma “concorrência desleal” com as revistas sérias e de qualidade.

Essas revistas, que já são chamadas de “open access predatórias” com muita frequência não têm nenhum tipo de indexação em bases de dados eletrônicas. Portanto, exceto se tiver acesso aos websites das próprias revistas, o leitor não consegue ter acesso aos textos ou mesmo saber que os artigos existem. Elas frequentemente não são rastreáveis. E não estão indexadas justamente porque as bases de dados indexadoras têm critérios mínimos de qualidade, uniformidade e constância de publicação para considerarem a inclusão de novos periódicos. Revistas que não são capazes de manter sua periodicidade nem têm transparência em seu sistema de revisão por pares não são indexadas, simplesmente.

Para quem tem carreira acadêmica e precisa provar um certo número de publicações em periódicos indexados todo ano, essas revistas open access predatórias são uma perda de tempo — ao contrário das revistas open access sérias e publicadas por boas editoras, que têm indexação e excelente visibilidade. Existem, inclusive, muitas denúncias de infrações éticas cometidas pelas revistas “predatórias”, desde publicações redundantes até plágios ou publicação de artigos falsos. Muitas não têm sequer endereço fixo ou editor responsável.

A lista de Beall

Jeffrey Beall, biblioteconomista da Universidade de Colorado (Denver, Estados Unidos), pesquisou a área por muitos anos até aposentar-se. Sim, esta se tornou uma linha de pesquisa na biblioteconomia, assim como métricas, metadata e outras. Beall montou uma página na internet na qual lista centenas de revistas de várias áreas que foram consideradas como predatórias. Essas publicações foram classificadas como predatórias de acordo com uma lista de critérios que abrangia desde a composição do corpo editorial e sua qualificação acadêmica até a transparência (falta de) no processo de avaliação por pares, o comprometimento (falta de) com a preservação digital dos documentos, envio de cobranças de taxas surpresa, republicação, por cópia, de artigos publicados em outras revistas (sim, plágio) e muitas outras pistas. A principal missão dessas revistas é ganhar dinheiro — e não contribuir com a ciência mundial.

A “lista de Beall” está publicada e constantemente atualizada em https://scholarlyoa.com/publishers/

Os critérios que ele utilizou para criar a lista estão em:
https://scholarlyoa.files.wordpress.com/2015/01/criteria-2015.pdf

Vale a pena também ler este artigo sobre critérios para considerar uma revista como predatória: http://www.la-press.com/2014-Hill-illegitimate-PRINT.pdf

A lista das boas open access

Uma lista de revistas open access sérias, de boa qualidade, está disponível no Diretório de Revistas Open Access https://doaj.org/, que contém mais de 9 mil revistas de várias áreas. Estas são listadas de acordo com princípios de transparência e qualidade, que estão disponíveis no site para consulta. A presença na lista produzida pela DOAJ, uma organização social sem fins lucrativos, é um bom sinal de qualidade da publicação. O DOAJ, quando suspeita de falhas de conduta das revistas, remove essas publicações de sua lista. Portanto, ao buscar uma revista open access para publicar um artigo, o DOAJ deveria ser a primeira fonte.

Atualização deste post (em outubro de 2020):

O campo da meta-pesquisa tem se dedicado a investigar mais a fundo o fenômeno das revistas predatórias e a “lista de Beall” já não é mais considerada atualizada nem única. Surgiram outros critérios, propostos por várias equipes diferentes, muitas vezes até discordantes, para considerar uma revista como predatória ou não. Consenso existe em classificar revistas científicas predatórias como aquelas que cobram taxas para a publicação, não praticam revisão por pares (peer review) ou têm procedimentos obscuros ou de baixa qualidade de revisão (portanto essas revistas publicam “qualquer coisa”) e não são indexadas nas bases de dados utilizadas para pesquisa. Portanto, permanece a recomendação de evitar as revistas predatórias ao máximo, por mais que elas prometam eficiência e rapidez.

Retiramos, a pedido de leitores, os termos “lista negra” e “lista branca” deste post, passando a utilizar expressões gerais não ofensivas.